Falar sobre epistemologia de forma simples é importante porque, durante muito tempo, o conhecimento foi tratado como algo distante das pessoas comuns — como se apenas universidades, especialistas ou determinadas tradições intelectuais tivessem o direito de explicar o mundo. No entanto, epistemologia, em sua essência, diz respeito a uma pergunta profundamente humana: quem tem o direito de produzir conhecimento e quais saberes são considerados legítimos? Tornar essa discussão acessível significa permitir que povos historicamente silenciados compreendam que suas memórias, experiências, oralidades, formas de cuidado, espiritualidades e modos coletivos de existência também carregam pensamento, interpretação e elaboração do mundo. Simplificar não significa empobrecer o debate, mas romper a ideia de que teoria pertence apenas a alguns corpos, línguas ou instituições.
E talvez seja justamente isso que ainda provoque incômodo. Porque discutir epistemologia desloca relações de poder. Quando povos indígenas, quilombolas, romani, comunidades tradicionais, mulheres periféricas e tantos outros sujeitos passam a afirmar que também produzem conhecimento — e não apenas cultura, folclore ou experiência —, questiona-se uma estrutura histórica que definiu quem poderia falar e quem deveria apenas ser estudado. O incômodo nasce quando o “objeto” passa a falar a partir de si, produzindo teoria, crítica e interpretação do mundo. Não porque o plural ameace o conhecimento, mas porque ele desafia a ideia de que exista apenas uma forma legítima de construí-lo.
Elisa Costa - Presidente da AMSK/Brasil
O que é epistemologia?
De forma simples: epistemologia é o estudo de como o conhecimento é produzido, reconhecido e considerado válido.
Ela pergunta:
- O que conta como conhecimento?
- Quem pode produzir conhecimento?
- Quais saberes são considerados legítimos?
- Quem define o que é verdade?
- Quais conhecimentos são silenciados?
Ou seja:
não é apenas “o que sabemos”, mas: como decidimos o que vale como saber.
Um exemplo simples
Durante muito tempo, universidades e instituições disseram que:
- ciência escrita;
- europeia;
- branca;
- masculina;
- racionalista
era o modelo “verdadeiro” de conhecimento.
Enquanto isso:
- oralidade;
- memória ancestral;
- espiritualidade;
- saber comunitário;
- parteiras;
- benzedeiras;
- povos indígenas;
- quilombolas;
- romani
eram vistos como:
- folclore;
- crença;
- superstição;
- cultura “menor”.
A epistemologia crítica pergunta:
quem decidiu isso?
E:
por que alguns saberes foram considerados inferiores?
O direito de produzir conhecimento sem precisar abandonar a si mesmo. Dosta/AMSK
Porque:
- oralidade não é inferioridade;
- memória ancestral não é atraso;
- cosmologia não é ignorância;
- saber comunitário não é ausência de racionalidade.
Mas isso NÃO significa:
- negar alfabetização;
- negar universidade;
- negar tecnologia;
- negar circulação;
- negar direitos.
Não caia nessa armadilha. O que estamos dizendo é: não queremos substituir um apagamento por outro.
O problema nunca foi:
- aprender;
- estudar;
- acessar ciência;
- escrever;
- ocupar universidades.
O problema foi a exigência histórica de que povos abandonassem suas formas próprias de existir para serem considerados legítimos. Exemplo? O nomadismo romantizado em forma de liberdade e não a exclusão e a violência imposta do: Não os quero aqui.
Defender nossa forma de estar no mundo e pertencer, não significa romantizar precariedades históricas, negar o acesso à educação formal ou transformar exclusões em identidade cultural. O que se afirma é a possibilidade de construir conhecimento sem que isso exija o abandono da memória, da ancestralidade, da oralidade e das formas próprias de existência coletiva. Não se trata de folclorizar ausências produzidas pela desigualdade, mas de reconhecer que diferentes povos podem acessar direitos, ciência e produção acadêmica sem precisar renunciar às suas cosmologias e referências históricas.
Então o que é uma epistemologia romani?
É quando o pensamento romani deixa de aparecer apenas como:
- objeto de pesquisa;
- “cultura observada”;
- grupo estudado por outros - ou bando
e passa a ser reconhecido como:
- produtor de teoria;
- produtor de interpretação do mundo;
- produtor de conhecimento legítimo.
Ou seja:
não é apenas “falar sobre romani”.
É:
pensar A PARTIR do mundo romani.
Isso é profundamente diferente. Isso muda tudo.
O Pensamento colonial e a sua imposição na nossa forma de pensar e agir também atua dizendo:
- quais conhecimentos importam;
- quais línguas são legítimas;
- quais cosmologias são “racionais”;
- quais povos têm direito de explicar o mundo.
O que estamos dizendo é:
existem outras formas legítimas de produzir conhecimento e compreender a vida.
Isso é epistemologia.
Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja aprender a caminhar sem repetir dois caminhos igualmente violentos. De um lado, a lógica do universalismo colonial, que durante muito tempo afirmou existir apenas uma forma correta de viver, aprender, falar, educar as crianças, produzir conhecimento e compreender o mundo. Uma lógica que transformou diferenças em ausências e que frequentemente exigiu de muitos povos o abandono de suas memórias, línguas, espiritualidades e modos coletivos de existir para que fossem considerados “civilizados”, “modernos” ou “capazes”.
Mas também é preciso cuidado para não cair no extremo oposto: a romantização da exclusão. A pobreza não é tradição. O sofrimento não é identidade cultural. O analfabetismo, a ausência de direitos e a dificuldade de acesso à educação, à saúde ou à participação política não podem ser tratados como elementos “naturais” de nenhum povo. Há uma diferença profunda entre valorizar saberes ancestrais e aceitar desigualdades históricas como destino.
Defender um ensaio para epstemiologias romani talvez seja justamente construir outros caminhos. Caminhos em que seja possível acessar universidade, ciência, tecnologia, escrita e direitos sem que isso exija abandonar a oralidade, a memória, a ancestralidade e os modos próprios de viver o pertencimento. Um caminho onde tradição e transformação não precisem ser inimigas, e onde o futuro possa ser construído sem que os povos sejam obrigados a deixar de ser quem são para poder existir com dignidade.
Porque preservar a memória não significa permanecer preso ao passado. Significa garantir que o avanço não aconteça às custas do apagamento.
Como afirmava Maylê Fia, fundadora da AMSK Brasil, “que a miséria, a pobreza, o analfabetismo e o racismo não sejam a herança do povo romani”. A defesa desses "ensaios" não significa permanência na exclusão, mas a possibilidade de construir futuro sem que isso exija o abandono da memória, da ancestralidade e das formas próprias de existir.
AMSK/Brasil

Comentários
Postar um comentário