A AMSK/Brasil esteve no campo de Lety em 2024. Lá, deixamos um pouco de nós mesmos — e trouxemos a certeza de que essa história precisa ser contada, repetidas vezes (Michel kriston e Sam Cândido) Em Lety, não havia saída, havia apenas a vontade de sobreviver, dia após dia. A brutalidade daqueles dias não ficou no passado: ela se desdobra no presente, inclusive quando nos negam o direito de existir como indivíduos e como coletivo. A identificação nunca é simples, especialmente quando se rompe o estereótipo imposto da coletividade. Todos os dias se impõe a pergunta: vale a pena dizer quem se é, ou é mais seguro viver silenciosamente a própria realidade étnica, entre os seus, em segredo? A violência assume muitas formas — e, infelizmente, permanece até hoje, quando o olhar folclorizado sobre o “bando” ainda é tratado como natural, e a exposição das pessoas continua sendo legitimada.
Quem foi
Božena Pflegerová
- Nome
completo: Božena Pflegerová (nascida Sigmundová)
- Nascimento: 1921,
atual República Tcheca
- Origem:
família romani itinerante (viviam em carroça)
- Profissão
da família:
- pai:
afiador de facas
- mãe:
vendedora de utensílios
A prisão
(momento-chave)
- Data: 5
de agosto de 1942
- Invadida
de madrugada pelo Gestapo
- enganada
com promessa de “trabalho”
- levada
com outras famílias
Isso aparece muito nos relatos: a mentira
como estratégia de captura. Já havia controle estatal antes do nazismo, registros
de “identificação” de pessoas romani e as propostas de esterilização chegaram a
circular, a perseguição não começa no campo — ela é construída antes
Božena Pflegerová tinha 21 anos quando foi presa no campo de Lety, junto com seu filho de um ano.
Lá, nasceu sua filha, Berta.
Berta viveu apenas três meses.
Nasceu em 2 de setembro de 1942.
Morreu de fome em 2 de dezembro de 1942.
Ela não recebeu sequer um número. Muitos não recebiam, por esse motivo sabemos que foram bem mais de 500 mil mortos.
“As crianças morriam frequentemente de tifo e disenteria. Não passava um dia sem que os cadáveres fossem retirados…”
“Minha filha… morreu de fome… nem sequer recebeu um número.”
“Eles também não eram pessoas de carne e osso?”
A história de Božena não é única. Ela é parte do genocídio Roma e Sinti. E essa história ainda está sendo contada.
Campo de Lety (o que ela viveu por lá)
- chegou grávida
- teve a filha dentro do campo
-
condições:
- fome constante
- epidemias (tifo, disenteria)
- violência de guardas e kapos
- roubo de comida pelos administradores
- corpos:
- empilhados
- levados para a floresta
- enterrados em valas.
- Filho: Vlastimil (sobreviveu)
-
Filha: Berta Štěpánka
- nasceu no campo
- morreu em dezembro de 1942
- por causa das condições do campo.
Ela foi libertada em 1943 com a justificativa de que “não era cigana”
“Retorno indesejado” (Return Undesired) - escreveu suas memórias nos anos 1980
- um dos únicos testemunhos escritos por alguém que esteve em Lety
- hoje é peça central de memorial
- ajuda a reconstruir uma história que foi apagada
Anos depois, já adulta, ela encontrou: seu nome, o nome do filho e o nome da filha morta em uma lista de prisioneiros. Isso fez ela decidir escrever.
Título:
“Retorno Indesejado” — uma memória escrita para permanecer
Texto:
“Retorno indesejado” é o testemunho escrito por Božena Pflegerová anos após o fim da guerra, já na década de 1980. Não se trata de um livro publicado, mas de um manuscrito — uma escrita feita a partir da memória, do corpo e da experiência vivida no campo de Lety. Ao escrever, Božena não buscava reconhecimento literário, mas registrar aquilo que não podia ser esquecido.
Hoje, esse manuscrito é preservado como documento histórico no Museu da Cultura Romani, na Europa, e integra acervos de memória sobre o genocídio Roma e Sinti. Suas páginas não são apenas relato — são prova, denúncia e resistência. Escrito depois de décadas de silêncio, “Retorno indesejado” existe para que o mundo não possa dizer que não sabia, e para que as próximas gerações possam lembrar.

