Feliz aniversário, Estatuto da Criança e do Adolescente [36 anos do ECA] e o Plano Nacional dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes
Feliz
aniversário, Estatuto da Criança e do Adolescente
Feliz aniversário ao Estatuto da Criança e do Adolescente.
Que seus dias continuem frutíferos, que seus
anos sejam passos largos alimentados por direitos e que sua memória nos
acompanhe por todos os caminhos que ainda desejamos construir.
Hoje quero falar sobre as infâncias e sobre
aquilo que tenho chamado de o tempo da rosa azul e das tâmaras.
Esta mesa que hoje se reúne carrega uma
história. Daquelas que espero, um dia, ver contadas pelas mãos do companheiro e
amigo professor Humberto; iluminadas pelo sorriso largo do professor Anderson;
e eternizadas no abraço do professor Mário.
Ela reúne também o amigo e companheiro
professor Assis, para quem talvez nunca existam palavras suficientes para
expressar nossa gratidão e o profundo respeito que construímos ao longo dessa
caminhada.
Da nossa parte, trazemos mulheres fortes que
dedicaram suas vidas à defesa intransigente das nossas infâncias: Lucimara,
Ariadyne, Sandra, Anne, Maristela e tantas outras que caminharam conosco.
Faço questão de nomear as infâncias pelas
quais trabalhamos.
As infâncias dos povos originários; as
infâncias quilombolas; as infâncias do povo Romani; as infâncias dos povos e
comunidades de terreiro e de matriz africana; dos pescadores artesanais; dos
extrativistas; dos extrativistas costeiros e marinhos; dos caiçaras; dos
faxinalenses; dos benzedeiros; dos ilhéus; dos raizeiros; dos geraizeiros; dos
caatingueiros; dos vazanteiros; dos veredeiros; dos apanhadores de flores
sempre-vivas; das infâncias pantaneiras; morroquianas; do povo pomerano; dos
catadores de mangaba; das quebradeiras de coco babaçu; dos retireiros do
Araguaia; das comunidades de fundos e fechos de pasto; das infâncias
ribeirinhas; dos cipozeiros; dos andirobeiros.
E sigo.
As infâncias caboclas.
As infâncias brutalizadas pelas balas
perdidas.
As infâncias devastadas pelos embargos
econômicos.
As infâncias julgadas e condenadas ainda no
ventre de suas mães, pela cor, pela raça, pela etnia ou pela religião.
As infâncias condenadas pela nossa omissão
diante da violência física, do trabalho infantil, da fome e das guerras —
televisionadas ou silenciosas.
Lembro também das infâncias do Buraco e das
infâncias do Cemitério, que nascem, crescem e envelhecem em lugares que
aprenderam a chamar de lar, já na terceira ou quarta geração.
Em nome de toda a nossa equipe e em meu nome,
agradecemos à Maylê Sara, à Maylê Fia e a todas as vozes que se levantaram; às
pessoas que adoeceram; e às tantas que tombaram para que todas essas infâncias
pudessem existir plenamente, embaladas pelo primeiro dos direitos: o direito
de existir.
Também pedimos perdão às infâncias às quais
foram roubadas a paz, a dignidade e o futuro.
Pela fome.
Pelas guerras, na África, na Palestina, no
Afeganistão e em tantos outros territórios esquecidos.
Pela rua.
Pelo Barô Mudaripen — também conhecido como
Porrajmos ou Samudaripen, o Holocausto Romani.
E, talvez a pior de todas as violências: a
ignorância.
Há um ensinamento em romanês, criado após uma tradução
livre do artigo 227 da Constituição Federal de 1988, que resume tudo aquilo que
defendemos:
"Amare tsinorren, lê tsinorren avrengue
thai vi lê tsinorre khanikaske, si sa amare."
"As nossas crianças, as crianças dos
outros e as crianças de ninguém, são nossas também."
É impossível falar de infância sem falar
também do direito à língua.
Por isso, celebramos, com enorme emoção, a
primeira tradução do Estatuto da Criança e do Adolescente para o romanês.
Em 26 de março de 2026, o Ministério dos
Direitos Humanos e da Cidadania, sob a liderança da ministra Macaé Evaristo,
lançou oficialmente o Statuto pala Shavore thai Ternimata ande Romaní Shib.
Essa iniciativa foi construída em parceria com
a Associação Internacional Maylê Sara Kalí (AMSK/Brasil), a International
Romani Union, a Universidade de Brasília, a Secretaria Nacional dos Direitos da
Criança e do Adolescente e contou com o apoio do Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento (PNUD).
Em 2015, a UNESCO reafirmou o reconhecimento
da língua romani como parte do patrimônio linguístico e cultural da humanidade,
proclamando o dia 5 de novembro como o Dia Mundial da Língua Romaní.
Quando o Brasil publica o Estatuto em romanês,
ele não realiza apenas uma tradução.
Ele reconhece institucionalmente uma língua,
um povo, uma memória e um pertencimento.
Como afirmou Michel Kriston, tradutor da obra:
"Eu sinto orgulho disso. Não por vaidade
minha, mas por ter colaborado com isso. Algo que vai ficar. Acho que foi o
trabalho mais importante da minha vida."
Talvez essa frase diga mais do que qualquer
discurso.
A escuta culturalmente adequada, o direito aos
tempos e aos silêncios, o combate ao adultocentrismo e à cultura da violência
dirigida contra essas infâncias constituem princípios inseparáveis daquilo que
defendemos.
É por isso que gosto de pensar o Plano
Nacional Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes como o
tempo da Rosa Azul e das Tâmaras.
A rosa azul simboliza aquilo que jamais deve
ser esquecido.
As tâmaras nos lembram que existem memórias
que alimentam gerações.
Há saberes que permaneceram vivos durante
séculos, muitas vezes escondidos, outras vezes silenciados, até encontrarem
novamente o seu tempo de florescer.
Talvez este seja justamente esse tempo.
O tempo das rosas azuis.
O tempo das tâmaras.
Permitam-me, então, uma provocação.
Se sabemos que, em tempos eleitorais, crianças
e adolescentes tornam-se símbolos dos bons costumes e da família;
Se sabemos que grande parte das violações
contra essas infâncias continua sendo justificada por discursos religiosos,
moralizantes ou autoritários;
Se sabemos que a exploração infantil e as
grandes obras devastam mais vidas do que queimadas, terremotos e guerras;
E se sabemos que nossas infâncias possuem
histórias, identidades, pertencimentos étnicos, raciais, culturais e
linguísticos que precisam ser preservados...
Então também sabemos que não podemos continuar
permitindo que qualquer ideologia, religião ou projeto de poder retire dessas
crianças o direito de crescer, de pensar e de construir, livremente, sua
própria existência.
Os passos estão sendo dados com esperança,
alegria, responsabilidade e respeito.
A construção deste Plano demonstra que somos
capazes de sonhar coletivamente.
Agora, porém, precisamos ter coragem de
plantá-lo, regá-lo e protegê-lo para além dos nossos limites pessoais,
institucionais ou políticos.
Porque nenhuma criança pertence apenas à sua
família, ao seu território ou à sua cultura.
Toda criança pertence também ao nosso
compromisso ético com a humanidade.
Que o Estatuto da Criança e do Adolescente
continue sendo, por muitos anos, não apenas uma lei.
Que continue sendo uma promessa renovada de
dignidade, respeito plural, pertencimento e esperança.
Muito obrigada...

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