"Eles tinham nome" Parte 7 - Resistência Romani: luta, memória e presença — homens e mulheres contra o extermínio.

 Resistência Romani: luta, memória e presença — homens e mulheres contra o extermínio.

Durante o Holocausto, o povo Romani foi alvo de perseguição sistemática: deportações, campos de internamento, trabalho forçado e assassinato em massa. Ainda assim, por décadas, a história dominante insistiu em retratá-los apenas como vítimas — silenciando uma dimensão fundamental: a resistência ativa, organizada e cotidiana.

Essa resistência assumiu muitas formas, atravessando territórios, corpos e estratégias.

mulheres na resistência armada. France - History - Memorial. 

Da fuga à liderança armada - porque houve luta em vários momentos e precisamos falar de tudo isso.

No território do Protetorado da Boêmia e Morávia*, Josef Serínek rompeu o cativeiro e recusou o destino imposto. Ao fugir, não apenas sobreviveu — reorganizou sua existência como luta.

Refugiado nas florestas, passou a integrar grupos de resistência e, com o tempo, tornou-se líder de uma unidade partisana. Sob sua condução, essas unidades operavam de forma descentralizada, móvel e estratégica, realizando:

  • sabotagens de infraestrutura nazista
  • emboscadas contra patrulhas
  • desarticulação de rotas militares
  • proteção de fugitivos e perseguidos

Sua trajetória demonstra que houve liderança Romani em combate armado, desafiando diretamente o regime nazista.

Ao seu lado, ainda que muito menos documentado, nomes como Antonín Murka indicam que essa resistência não foi isolada. Murka permanece quase ausente dos arquivos — não porque não tenha lutado, mas porque sua luta não foi considerada digna de registro.

Entre Serínek e Murka, vemos dois lados da mesma história:
a resistência que sobreviveu nos registros e a que foi deliberadamente apagada.

O que era o Protetorado da Boêmia e Morávia

O Protetorado da Boêmia e Morávia (em tcheco Protektorát Čechy a Morava) foi um território administrado pela Alemanha Nazista entre 1939 e 1945, abrangendo as regiões tchecas centrais da antiga Tchecoslováquia. Representou a perda de soberania do país após a ocupação alemã e foi um dos principais exemplos de dominação política e econômica na Europa Central durante a Segunda Guerra Mundial.

Fatos principais

  • Período: 16 de março de 1939 – 9 de maio de 1945

  • Capital: Praga

  • Línguas oficiais: Alemão e tcheco

  • Moeda: Koruna tcheca (subordinada ao Reichsmark)

  • Fim: Libertação pelas forças Aliadas e restauração da Tchecoslováquia

Formação e administração

O protetorado foi criado após a dissolução da Tchecoslováquia em março de 1939, quando Adolf Hitler anexou as terras tchecas remanescentes, enquanto a Eslováquia tornou-se um Estado fantoche separado. A administração civil era nominalmente chefiada pelo presidente Emil Hácha, sob forte controle do Reichsprotektor, representante direto de Berlim. O território era explorado economicamente para sustentar o esforço de guerra alemão, com ampla repressão política e cultural.

Política e sociedade

A população, majoritariamente tcheca, foi submetida à germanização forçada e à censura. Organizações nacionalistas e a resistência armada clandestina surgiram em resposta à ocupação. Intelectuais e líderes políticos foram perseguidos, e muitos cidadãos enviados para campos de concentração.

Holocausto e repressão

Durante o período, a comunidade judaica da Boêmia e Morávia foi deportada em massa, com destaque para o campo de concentração de Theresienstadt (Terezín), usado como campo de trânsito e propaganda nazista. Milhares de judeus e opositores do regime foram assassinados.

Colapso e legado

O protetorado terminou em maio de 1945 com a derrota da Alemanha. A Tchecoslováquia foi restaurada, embora sob forte influência soviética no pós-guerra. A experiência do protetorado deixou marcas profundas na memória nacional tcheca, simbolizando a perda de independência e a resistência frente à opressão.


Autodefesa dentro dos campos

A resistência Romani não se limitou às florestas ou aos grupos armados.
Ela também emergiu nos espaços mais brutais do sistema nazista.

No Auschwitz II-Birkenau, em 16 de maio de 1944, prisioneiros Romani organizaram uma ação de autodefesa coletiva contra a tentativa de liquidação do chamado “campo cigano”.

Sem armas formais, utilizaram: ferramentas de trabalho, pedaços de madeira,qualquer objeto possível.

E, ainda assim, conseguiram forçar o recuo temporário das SS.

Esse episódio rompe uma narrativa central:
mesmo sob vigilância extrema, fome e terror, houve organização, decisão e enfrentamento coletivo.

Resistência em diferentes territórios



A presença Romani na resistência atravessou a Europa.

Na Iugoslávia, sob a liderança de Josip Broz Tito, homens e mulheres Romani integraram as forças partisanas, participando de: combates diretos, sabotagens, libertação de territórios, proteção de civis perseguidos.  Embora raramente identificados como Romani nos registros oficiais, sua atuação foi parte concreta da luta antifascista.

Na França, Raymond Gurême transformou a fuga em estratégia de resistência. Internado em campos como o de Campo de Montreuil-Bellay, escapou repetidamente, retornando à clandestinidade e atuando em apoio à resistência.

Décadas depois, foi reconhecido com a Legião de Honra — um reconhecimento raro, que evidencia não apenas sua trajetória, mas o silêncio sobre tantos outros que jamais foram condecorados.


Muzeun Krobia

As mulheres Romani na resistência

Se os homens Romani foram pouco registrados, as mulheres foram ainda mais profundamente apagadas.
E, no entanto, sem elas, nenhuma resistência teria sido possível.

As mulheres Romani sustentaram a vida em condições de extermínio.

Foram elas que:

  • organizaram fugas e esconderijos
  • protegeram crianças, idosos e famílias inteiras
  • mantiveram redes de alimentação e cuidado
  • atuaram como mensageiras clandestinas
  • garantiram circulação de informações
  • sustentaram deslocamentos em territórios hostis

Em alguns contextos, também participaram diretamente de ações de resistência.

Mas mesmo quando não empunhavam armas, realizavam algo fundamental: tornavam a sobrevivência possível — e isso também é luta.

Algumas trajetórias começam a emergir do silêncio:

  • Ceija Stojka — cuja memória transformada em arte denuncia o genocídio e preserva a experiência vivida
  • Settela Steinbach — cuja imagem se tornou símbolo de uma história que quase foi apagada

Ainda assim, a maioria das mulheres permanece sem nome nos arquivos. Isso não indica ausência. Indica o limite de quem foi considerado digno de memória.


Yugoslav Soldiers

Apagamento e disputa histórica

A dificuldade de reconstruir a resistência Romani não é acidental.

Ela resulta de:

  • destruição de documentos
  • natureza clandestina das ações
  • ausência de registro sistemático
  • racismo estrutural na produção historiográfica

Muitos combatentes foram registrados apenas como “partisans”, sem reconhecimento de sua identidade. Outros sequer foram registrados.

Enquanto algumas resistências foram celebradas como heroicas,
as ações Romani foram frequentemente reduzidas a:

  • fuga
  • desordem
  • ou simplesmente ignoradas

O problema nunca foi a ausência de resistência.
O problema foi o reconhecimento seletivo.


Resistência como presença

A resistência Romani não foi exceção.
Foi prática contínua.

Ela esteve:

  • na liderança armada de Josef Serínek
  • nos nomes quase apagados como Antonín Murka
  • na autodefesa coletiva em Auschwitz II-Birkenau
  • nas fileiras partisanas da Iugoslávia
  • na resistência clandestina de Raymond Gurême
  • e, de forma estrutural, na ação contínua das mulheres Romani

Fechamento político - porque precisamos nos posicionar assim.

O povo Romani não apenas sobreviveu ao genocídio.
Resistiu a ele.

Nas florestas, nos campos, nas estradas e na clandestinidade, homens e mulheres organizaram luta, protegeram vidas e enfrentaram o extermínio.

Quando essas histórias não aparecem, não é porque não existiram.

É porque foram apagadas.


Imperial Wars Museum

Não houve fim.
Não houve encerramento.

A morte foi premeditada, orquestrada, dirigida —
executada com método, com ciência, com a frieza de quem acreditava poder decidir quem devia viver e quem devia desaparecer.

Houve requintes de apagamento.
Houve experimentação médica.
Houve a tentativa sistemática de extermínio, sustentada pela lógica violenta da eugenia e pela imposição de uma suposta superioridade que se quis tornar regra.

E ainda assim, não terminou.

Porque aquilo que foi destruído em corpos
não foi apagado em memória.

Por todas elas —
por cada nome silenciado, por cada história interrompida —
seus nomes estarão conosco.

E seus filhos, e os filhos de seus filhos,
permanecerão vivos naquilo que carregamos,
gravados não apenas na história,
mas nos nossos corações.

Elisa Costa - Presidente da AMSK/Brasil