"Eles tinham nome". Parte 2

 Posicionamento AMSK/Brasil 

  • A AMSK não trata essas datas como marcos simbólicos vazios, nem como oportunidades protocolares de visibilidade. O 16 de maio não é um evento comemorativo — é memória de resistência diante do extermínio, é história marcada por sangue, ruptura e luta coletiva do povo romani. Banalizar essa data é repetir a violência do apagamento, é reduzir vidas interrompidas a narrativas superficiais, é transformar um levante histórico em conteúdo despolitizado. Para a AMSK, isso é inaceitável. Memória não é estética: é responsabilidade.

    Levamos isso a sério porque sabemos o que acontece quando a história é distorcida, suavizada ou esquecida. O povo romani foi sistematicamente silenciado antes, durante e depois do Holocausto — e esse silêncio continua sendo reproduzido quando datas como o 16 de maio são tratadas sem rigor, sem contexto e sem compromisso político. Defender a memória é defender a verdade, a dignidade e o direito de existir com nome, história e voz. Não há neutralidade possível quando se trata de genocídio e resistência. Há posicionamento — e o nosso é claro.


Eles tinham nome. Não eram números, nem categorias, nem aquilo que os regimes tentaram reduzir. Eram mulheres, homens, crianças, famílias inteiras do povo romani, arrancadas de suas histórias e lançadas à violência do esquecimento. No dia 16 de maio de 1944, no chamado “Zigeunerlager” de Auschwitz-Birkenau, houve resistência. Houve organização. Houve recusa. E, sobretudo, houve humanidade. Lembrar essa data é romper com a lógica que tentou apagá-los — é devolver nome, rosto e dignidade àqueles que insistiram em existir.

A memória romani não pode ser construída a partir do silêncio imposto de fora. Ela precisa ser afirmada por nós, a partir das nossas narrativas, dos nossos vínculos e das nossas formas de existir no mundo. Quando dizemos “eles tinham nome”, afirmamos que havia história antes da violência e que há continuidade depois dela. Não se trata apenas de lembrar o sofrimento, mas de reconhecer a resistência como fundamento da nossa presença até hoje.


Acervo AMSK/Brasil

Essa memória é também um ato político. Nomear é reivindicar lugar, é romper com séculos de invisibilização e disputar o direito de contar a própria história. O 16 de maio não é apenas uma data do passado: é um marco de luta que atravessa o presente, que ecoa nas vozes que ocupam espaços institucionais, que denunciam o racismo e exigem reparação. A identidade romani se fortalece quando se reconhece como parte de uma história de resistência coletiva.

E é na literatura, na escrita, na produção de conhecimento, que essa memória encontra permanência. Cada palavra registrada é um gesto contra o apagamento. Cada narrativa construída é uma forma de garantir que não sejamos novamente reduzidos ao silêncio. Eles tinham nome — e é nossa responsabilidade continuar dizendo, escrevendo e afirmando esses nomes, para que jamais sejam esquecidos, para que sigam vivos na nossa luta, na nossa identidade e no nosso futuro.

Uma ilustração a memória das mulheres Horvath - acervo AMSK/Brasil


Acervo de imagens/AMSK/Brasil

Elas tinham nome. E entre esses nomes está Hermine Horváth, mulher romani de Burgenland, sobrevivente do Holocausto. Sua história atravessa o que tentaram apagar: família, território, identidade. Em 1943, foi deportada para Auschwitz-Birkenau, levada ao chamado “campo cigano”, onde a vida era constantemente ameaçada pela fome, pela doença e pela violência sistemática. Como tantas outras mulheres romani, Hermine não foi apenas vítima — foi testemunha de um tempo que tentou transformar pessoas em ausência.

No dia 16 de maio de 1944, quando homens, mulheres e crianças romani resistiram à tentativa de extermínio imediato dentro do campo, não se tratava apenas de sobrevivência física. Era também uma afirmação coletiva de existência. Hermine faz parte dessa memória mais ampla, que não pode ser reduzida à dor, mas precisa ser reconhecida como resistência. Quando dizemos “eles tinham nome”, afirmamos que cada vida ali carregava história, vínculos e humanidade — e que nada disso pode ser apagado.

Após a guerra, a violência não cessou para Hermine. Como muitos sobreviventes romani, ela retornou a um mundo que não reconhecia sua dor. Perdeu parte da família, teve sua vida desestruturada e enfrentou a negação de direitos básicos, inclusive o reconhecimento e a reparação. Sua trajetória revela que o apagamento do povo romani não terminou com o fim do nazismo — ele continuou nas estruturas de silêncio, negligência e racismo institucional.

Por isso, trazer o nome de Hermine Horváth é um ato político. É afirmar que a memória romani precisa ser construída a partir das nossas narrativas, das nossas vozes e da nossa produção de conhecimento. Na escrita, na literatura e na ocupação dos espaços, garantimos que essas histórias permaneçam vivas. Eles tinham nome — e seguem tendo, cada vez que dizemos, escrevemos e recusamos o esquecimento.

AMSK/Brasil

AQUI UM POUCO DA SUA HISTÓRIA

NÃO SERÁ ESQUECIDA

Hermine Horvath , uma mulher cigana austríaca, oferece um relato particularmente angustiante. Horvath foi deportada para Auschwitz-Birkenau em 1943: " Era especialmente terrível para nós ter os homens da SS nos encarando o tempo todo, enquanto estávamos nuas. Um líder de esquadrão da SS no Bloco 8 tomava mulheres quando e onde lhe convinha". 



Hermine Horváth foi uma mulher romani nascida em 1905, na região de Burgenland, na Áustria. Sua vida, como a de tantas famílias romani, foi atravessada pela violência do regime nazista, que a perseguiu por sua origem étnica. Em 1943, ela foi deportada com sua família para Auschwitz-Birkenau, no chamado “campo familiar cigano”, onde as condições eram desumanas e marcadas pela fome, doença e morte constante.

Durante o período de encarceramento, Hermine perdeu parte de sua família — filhos morreram no campo, vítimas de doenças e da brutalidade direta do sistema. Posteriormente, foi transferida para Ravensbrück e depois para Mauthausen, sendo submetida a trabalhos forçados em condições extremas. Sua trajetória revela não apenas o genocídio sofrido pelo povo romani, mas também a insistência em sobreviver mesmo diante da destruição sistemática.

Após a libertação, em 1945, a violência não terminou. Como muitos sobreviventes romani, Hermine retornou para um território onde sua comunidade havia sido destruída. Sua casa não existia mais, sua família estava fragmentada e o Estado não reconheceu plenamente seu sofrimento. Ela chegou a ser injustamente acusada e condenada no pós-guerra, e teve negado o direito à reparação — um exemplo claro de como o apagamento do povo romani continuou mesmo após o fim do nazismo.

Mesmo assim, sua história não desapareceu. Hermine deixou testemunhos sobre o que viveu, contribuindo para que a memória romani do Holocausto não fosse completamente silenciada. Esses relatos são fundamentais porque rompem com o esquecimento histórico imposto ao povo romani e reafirmam aquilo que você está construindo no seu material: eles tinham nome, história e voz. (https://www.ravensbrueckerinnen.at/?page_id=2576&utm_source=chatgpt.com)

  • Relato em primeira mão de Hermine Horvath, uma "cigana" de Burgenland, sobre os campos de concentração de Birkenau e Ravensbrück.
  • Referência da coleção:
    • 1656
    Número de referência:
    • 1656/3/8/795
    Número de referência antigo:
    • P.III.h. (Auschwitz-Birkenau) Nº 795
    Período de cobertura:
    • [1958]
    Anotações sobre a data:
    • Data aproximada calculada a partir da data de recebimento.
    Extensão:
    • 12 peças
    Âmbito/Conteúdo:
    • A Sra. Horvath concedeu esta entrevista porque desejava que seu sofrimento fosse registrado para a posteridade.

      Ela é cigana, mas vinha de uma família de artesãos respeitável que se estabeleceu em Jabing (Burgenland). Quando os nazistas invadiram a Áustria em 1938, seu pai foi levado para Dachau, e sua mãe e seis irmãos mais novos foram enviados para trabalhar. A Sra. Horvath, com 13 anos, trabalhava para o chefe do grupo de moradores em Gross Petersdorf (p. 2), que a explorava cruelmente. Quando ele tentou seduzi-la, ela fugiu para Rechnitz. Em março de 1943, ela recebeu ordens para retornar para casa para se registrar e, dois dias depois, ela, sua mãe e irmãs, com um irmão de 3 anos, foram enviadas para Birkenau (p. 4).

      Inicialmente, eles foram alojados em estábulos, sem cobertores, comida ou água. Mais tarde, receberam a dieta de fome habitual e, após serem tatuados, foram alocados a vários Arbeitskommandos. Os ciganos recebiam os trabalhos mais pesados, e apenas os ciganos de língua alemã foram mantidos vivos por algum tempo. Os ciganos estrangeiros (sérvios) foram gaseados imediatamente (p. 6). Quando houve um surto de febre tifoide, a mãe da Sra. Horvath morreu. A Sra. Horvath foi levada para o Bloco Hospitalar, onde de 9 a 13 pacientes tinham que compartilhar uma cama. Comida e água eram praticamente inexistentes, mas os pacientes recebiam um pouco de chá doce e comprimidos, e a Sra. Horvath notou que todos que os consumiam morriam logo depois.

      A Sra. Horvath foi salva por um médico polonês que repetidamente conseguiu eliminar seu nome das listas para as câmaras de gás. Nos dias de confinamento, ninguém tinha permissão para sair, e o ar estava impregnado com o cheiro de carne humana queimada. Em uma dessas ocasiões, a Sra. Horvath viu pessoas sendo queimadas vivas em uma grande pira (p. 8) do lado de fora do crematório. Desde então, ela sofre de crises epilépticas. Quando a Sra. Horvath foi selecionada, juntamente com outras jovens, para experimentos médicos, tentou fugir, mas foi capturada e brutalmente punida. Graças a um amigo que servia no exército alemão, a Sra. Horvath finalmente conseguiu ser enviada para Ravensbrück, junto com sua irmã. Ela teve que trabalhar para a Siemens & Halske (p. 9). Embora um supervisor às vezes lhe desse comida, sua irmã morreu de inanição.

      Pouco antes do fechamento de Ravensbrück, a Sra. Horvath reuniu suas últimas forças para ser considerada “apta para o trabalho” e, assim, foi incluída em uma marcha para outro campo (p. 9). Dessa marcha, ela conseguiu escapar e voltar para sua cidade natal.

      Consulte o relatório relacionado P.III.h. (Mauthausen) nº 794 para obter mais informações. A Sra. Horvath faleceu em 10 de março de 1958, aos 33 anos de idade.

    Créditos:
    • Cortesia da Biblioteca Wiener
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