Carta
Política – 20 anos de reconhecimento institucional do Povo Romani no Brasil
(2006–2026)
Há vinte anos, o Estado brasileiro deu um
passo importante no reconhecimento da pluralidade de seu povo ao instituir, por
meio do Decreto de 25 de maio de 2006, o Dia Nacional do Cigano. Este ato,
embora simbólico, representou a abertura de um caminho histórico: o início de
uma agenda pública voltada à visibilidade, à dignidade e aos direitos dos povos
Romani no Brasil.
Mas é preciso afirmar com clareza: nossa
existência não começa com decretos. Ela atravessa séculos de resistência,
presença e contribuição invisibilizada na formação do país. O reconhecimento
institucional não cria o povo Romani — ele apenas começa a reparar o silêncio
histórico imposto sobre ele.
Ao longo dessas duas décadas, avanços
importantes foram construídos. A pauta Romani passou a ocupar espaços em
políticas públicas, ainda que de forma desigual e muitas vezes insuficiente. A
presença em conselhos, conferências e instâncias de participação social ampliou
vozes que historicamente foram negadas.
Nesse percurso, a sociedade civil organizada teve
papel fundamental. A atuação da Associação Internacional Maylê Sara
Kali (AMSK/Brasil) se insere como força política, cultural e de luta
nesse processo. Por meio de ações voltadas à memória, à educação, à
análise de microdados e à defesa intransigente dos direitos
humanos, bem como à valorização das mulheres Romani em todos os ciclos
da vida, a proteção das infâncias e à promoção da justiça social, a AMSK/Brasil
tem contribuído — tanto no Brasil quanto no cenário internacional — para
consolidar uma agenda que não se limita ao reconhecimento simbólico, mas que
reivindica transformação concreta.
A AMSK/Brasil reafirma, sobretudo, o protagonismo
das mulheres Romani — articuladoras de resistência e construtoras de um futuro
orientado pela promoção da paz. Em um cenário marcado por múltiplas violências
— étnicas, de gênero e sociais —, a centralidade dessas mulheres redefine os
caminhos da luta e da esperança.
Entretanto, os desafios permanecem profundos. O
racismo — expresso também no anticiganismo (romafobia) — segue presente
nas estruturas institucionais e nas práticas cotidianas. A ausência de
políticas públicas estruturadas, a invisibilidade estatística e a negação de
direitos básicos ainda marcam a realidade de muitas comunidades Romani no
Brasil.
Diante desse cenário, é fundamental que o Estado
brasileiro assuma, de forma inequívoca e intransigente, o compromisso de que os
direitos humanos dos povos Romani são indivisíveis, universais e inegociáveis,
devendo ser plenamente garantidos em todas as esferas.
Nossa trajetória de luta foi fortalecida ao longo
dos anos em que o país contou com a liderança de dois importantes estadistas —
o senhor Luiz Inácio Lula da Silva e a
primeira mulher a governar o país, Dilma Rousseff
— período em que se ampliaram espaços de diálogo, escuta e construção coletiva
com os povos Romani.
Os avanços alcançados são significativos e devem
ser reconhecidos. No entanto, permanecem desafios estruturais que exigem
continuidade e aprofundamento. Nesse sentido, consideramos fundamental o
reconhecimento institucional da nossa trajetória de luta em prol de um caminho
humanitário — o Drom Humanitary — orientado à proteção
integral de todas as nossas infâncias.
Da mesma forma, reiteramos a importância do
reconhecimento formal da memória histórica do povo Romani no contexto do
Holocausto, especialmente no que se refere ao Samudaripen — também denominado
Barô Mudaripen, a grande matança — como parte indissociável dos esforços
internacionais por verdade, memória e justiça.
Diante disso, a urgência do Censo Nacional se
impõe: sem dados, não há solidez na construção de políticas públicas, tampouco
reconhecimento das vidas concretas que existem para além das estatísticas.
Invisibilizar números é, também, perpetuar ausências.
Por isso, este marco de 20 anos não é apenas
comemorativo — é convocatório: chama à responsabilidade histórica, à reparação
e à construção de um futuro em que o povo Romani seja plenamente reconhecido em
sua dignidade, existência e direitos.
Convocamos o Estado brasileiro a avançar do
reconhecimento simbólico para a efetivação de direitos. Convocamos à construção
de políticas públicas específicas, contínuas e interseccionais, que considerem
as realidades diversas dos povos Romani. Convocamos à produção de dados, ao
enfrentamento do racismo institucional e à garantia de acesso pleno à
cidadania.
E reafirmamos: não há democracia plena sem o
reconhecimento e a justiça para o povo Romani.
Seguimos, como sempre estivemos — em
movimento, em resistência e em memória.
Somos plurais
Desde o reconhecimento oficial de 2006,
importantes avanços foram construídos na política voltada ao Povo Romani no
Brasil. Houve maior visibilidade, ampliação do debate público e o início de um
processo de compreensão sobre direitos, identidade e pertencimento. No entanto,
o próprio país mudou — e a visão institucional e social sobre o Povo Romani
também precisa continuar avançando.
A pluralidade das sociedades contemporâneas nos
desafia a abandonar visões engessadas, herdadas de séculos passados, que tentam
enquadrar identidades vivas em modelos únicos e limitados. O Povo Romani, no
Brasil e no mundo, é um povo transnacional, presente em diferentes territórios,
atravessando fronteiras, idiomas, contextos sociais e formas de organização
comunitária. Nossa existência não cabe em estereótipos cristalizados nem em
imagens romantizadas que tentam nos congelar no passado.
Somos diversos em nossas vivências, trajetórias e
modos de preservação cultural. Existem famílias sedentárias, itinerantes,
urbanas, rurais, tradicionais e contemporâneas — todas igualmente legítimas em
sua identidade e pertencimento. A cultura Romani não desaparece porque dialoga
com o presente; ela resiste justamente porque encontra caminhos de continuidade
entre memória, adaptação e sobrevivência histórica.
Reconhecer essa complexidade é também um
exercício democrático. Significa compreender que identidade não pode ser
condicionada à expectativa externa sobre “como um povo deve parecer” para ser
considerado legítimo. O século XXI exige uma compreensão mais humana, ampla e
atual sobre o Povo Romani: um povo transnacional, plural e vivo, que segue
produzindo cultura, memória, organização política e pertencimento através das
gerações e dos territórios.
A maturidade política também se constrói na
capacidade de reconhecer quem veio antes de nós. Cada avanço alcançado pelo Povo Romani foi resultado de trajetórias
marcadas por resistência, enfrentamento e permanência, muitas vezes em
contextos de invisibilidade, violência institucional e ausência de direitos. É
preciso respeito com aqueles que abriram caminhos, sustentaram memórias e mantiveram
viva a continuidade coletiva mesmo diante de profundas dificuldades.
Ao mesmo tempo, reconhecer essa história não
significa permanecer presos às limitações do passado. O momento atual exige
maturidade para compreender que estamos vivendo um salto político, social e
geracional. Novas formas de organização, novas leituras sobre identidade,
participação e representatividade surgem como parte natural de um povo vivo,
plural e em movimento. Isso pode gerar tensões, divergências e desafios
internos — especialmente em tempos de disputa por espaços de fala e
representação —, mas não deve apagar a dimensão coletiva da caminhada
construída até aqui.
A construção política responsável exige
equilíbrio entre memória e transformação. Exige respeito individual, escuta,
compromisso ético e consciência de que nenhuma trajetória é construída sozinha.
O avanço do Povo Romani depende justamente da capacidade de atravessar
diferenças sem destruir pertencimentos, fortalecendo caminhos mais amplos,
democráticos e coerentes com a complexidade do nosso próprio povo.
Em 2026 a AMSK/Brasil em sua AGO/registrou três Notas Técnicas, a fim de dar clareza e organicidade a suas representações, alinhadas com seus parceiros e com a coerência que temos mantido através dos anos.
NOTA TÉCNICA Nº 001/2026 – AMSK/Brasil
Assunto: Referência conceitual sobre anticiganismo (romafobia) para fins institucionais.
Esta Nota Técnica estabelece a referência conceitual adotada pela AMSK/Brasil acerca do anticiganismo/romafobia, em consonância com normativas internacionais de direitos humanos, sem prejuízo das formas de autodeclaração e autodeterminação dos povos romani.
NOTA TÉCNICA Nº 002/2026 – AMSK/Brasil
Assunto: Uso do termo “roma” e/ou “romani” nos documentos institucionais da AMSK/Brasil.
NOTA TÉCNICA Nº 003/2026 – AMSK/Brasil
Assunto: Uso inadequado do termo “cigano” em documentos institucionais.
Cartilhas AMSK/Brasil
Material didático
produzido pela AMSK/Brasil
A maturidade política também se constrói na
capacidade de reconhecer quem veio antes de nós. Cada avanço alcançado pelo Povo Romani foi resultado de trajetórias
marcadas por resistência, enfrentamento e permanência, muitas vezes em
contextos de invisibilidade, violência institucional e ausência de direitos. É
preciso respeito com aqueles que abriram caminhos, sustentaram memórias e mantiveram
viva a continuidade coletiva mesmo diante de profundas dificuldades.
Ao mesmo tempo, reconhecer essa história não
significa permanecer presos às limitações do passado. O momento atual exige
maturidade para compreender que estamos vivendo um salto político, social e
geracional. Novas formas de organização, novas leituras sobre identidade,
participação e representatividade surgem como parte natural de um povo vivo,
plural e em movimento. Isso pode gerar tensões, divergências e desafios
internos — especialmente em tempos de disputa por espaços de fala e
representação —, mas não deve apagar a dimensão coletiva da caminhada
construída até aqui.
A construção política responsável exige
equilíbrio entre memória e transformação. Exige respeito individual, escuta,
compromisso ético e consciência de que nenhuma trajetória é construída sozinha.
O avanço do Povo Romani depende justamente da capacidade de atravessar
diferenças sem destruir pertencimentos, fortalecendo caminhos mais amplos,
democráticos e coerentes com a complexidade do nosso próprio povo.
E hoje ...
Os desafios tornam-se cada vez maiores. A
globalização avança rapidamente e o uso das tecnologias exige atenção,
responsabilidade e cuidado permanente, especialmente diante do crescente
distanciamento educacional e do abismo coletivo que tende a se aprofundar entre
aqueles que conseguem acessar informação, participação e direitos, e aqueles
que permanecem à margem desses processos.
Novas formações sociais, culturais e políticas já
são uma realidade da qual não podemos nos furtar. O mundo mudou — e continuará
mudando — em velocidade acelerada. Por isso, avançar nas discussões e buscar
compreender as diferenças não é apenas uma necessidade política; é um
compromisso humano com a construção de um mundo mais inteiro, mais consciente e
menos desigual.
As barreiras sociais seguem se ampliando, mas
agora também se expandem as barreiras invisíveis da internet, da exclusão
digital, da desinformação e da dificuldade de acesso ao conhecimento. O desafio
contemporâneo não está apenas nos territórios físicos, mas também nos espaços
virtuais, onde identidades, narrativas e direitos passam a ser constantemente
disputados.
Talvez este seja um dos maiores desafios do nosso
tempo: preservar humanidade, pertencimento e responsabilidade coletiva em meio
às transformações profundas trazidas pela tecnologia, pela velocidade da
informação e pelas novas dinâmicas globais. O Povo
Romani, como povo transnacional e historicamente resiliente, também é
atravessado por essas mudanças — e pensar o futuro exige coragem para dialogar
com elas sem abrir mão da memória, da dignidade e da construção coletiva.
Observar e agir contra dinâmicas estereotipadas é
fundamental — especialmente no Brasil, onde visões religiosas, místicas e
fantasiosas sobre o Povo Romani muitas
vezes avançam sem controle, reproduzindo distorções históricas, exotificação e
formas silenciosas de desumanização. Quando identidades coletivas passam a ser
interpretadas apenas por imaginários superficiais ou caricatos, perde-se a
dimensão real de um povo, de sua história, de suas dores e de seus direitos.
A pluralidade das relações humanas exige
coerência, responsabilidade e coragem política. Exige capacidade de enfrentar
preconceitos naturalizados, inclusive aqueles que se escondem sob discursos
aparentemente culturais, espirituais ou romantizados. Nenhuma sociedade
democrática amadurece enquanto mantém povos inteiros aprisionados em
estereótipos construídos ao longo de séculos.
Nossa democracia ainda é jovem, marcada por
profundas desigualdades e por disputas constantes sobre memória, identidade e
pertencimento. A luta contra o nacionalismo excludente, contra a intolerância e
contra os processos de apagamento exige de todos nós compromisso com o
conhecimento histórico, disposição para reconhecer nossas próprias deficiências
sociais e coragem coletiva para nos reinventarmos diante dos desafios do
presente.
Reinventar-se não significa abandonar raízes.
Significa compreender que a preservação da dignidade humana depende da
capacidade de construir relações mais conscientes, mais éticas e mais abertas à
complexidade do mundo contemporâneo.
Só podemos ressignificar aquilo que conhecemos.
Por isso, enfrentar estereótipos, preconceitos e distorções históricas exige
прежде de tudo conhecimento, escuta e disposição para compreender a
complexidade humana para além das imagens superficiais que foram construídas ao
longo do tempo.
No caso do Povo
Romani, isso significa romper com narrativas romantizadas, místicas ou
exóticas que durante séculos limitaram a percepção social sobre nossas
existências. Não há transformação verdadeira sem consciência histórica. Não há
avanço democrático sem o reconhecimento da pluralidade real dos povos, de suas
trajetórias e de seus direitos.
Ressignificar também é um ato de coragem
política: olhar para o passado sem negar suas violências, reconhecer as
fragilidades do presente e construir novas possibilidades de convivência,
pertencimento e humanidade para o futuro.

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