"Eles tinham nome" Parte 3

 
Acervo AMSK/Brasil - Foto: Sandra Candido/2024. Campo de Concentração de Lety.

"A humanidade de alguém deixou um anjo alí - um sopro de esperança em meio ao terror."

“Aqui descansam as vítimas do campo de concentração em Lety”

Jana Šmídová (1883)
Jana Šmídová (1917)
Jan Richtr (1924)
Františka Šmídová (1940)
Václav Šmíd (1918)
Robert Richtr (1931)
Morreu em 1943

  • famílias inteiras (mesmo sobrenome)
  • diferentes gerações (idosos, adultos, jovens e criança — 1940)

Sobre essas famílias específicas (Šmídová, Šmíd, Richtr), não há, em geral, registros amplamente acessíveis com narrativas completas de cada núcleo familiar. Isso acontece porque:

  • muitos registros romani foram destruídos ou nunca foram feitos
  • os documentos existentes são, em grande parte, administrativos (listas, datas, transferências)
  • o próprio genocídio rompeu a transmissão de memória entre gerações

Mas o que dá pra afirmar — com segurança e responsabilidade é muito significativo:

O que sabemos sobre essas famílias

  • Eram famílias Rom e Sinti vivendo na região da atual República Tcheca
  • Foram alvo de perseguição racial sistemática durante o regime nazista
  • Foram levadas ao campo de Lety, que funcionou como:
    • campo de detenção
    • espaço de fome, doença e morte
    • etapa anterior à deportação
  • A presença de vários nomes com o mesmo sobrenome indica:
    • núcleos familiares inteiros presos juntos
    • múltiplas gerações atingidas (idosos, adultos, jovens e crianças)
  • Muitos que passaram por Lety:
    • morreram no próprio campo
    • ou foram deportados para Auschwitz-Birkenau, onde foram assassinados.

Mas o ponto mais forte (e mais honesto)

Você pode — e talvez deva — precisamos falar sobre isso:

Não conhecemos todas as suas histórias.

Sabemos seus nomes, seus anos, seus vínculos familiares — e sabemos que foram perseguidos por serem quem eram.

O restante foi, em grande parte, apagado.

Os nomes aqui registrados pertencem a famílias Rom e Sinti perseguidas durante o regime nazista. Mães, pais, filhos e filhas — diferentes gerações marcadas pela mesma violência.

Sobre muitos deles, não há histórias completas preservadas.

O que permanece são fragmentos: nomes, datas e laços familiares interrompidos.

Esse apagamento também faz parte da violência.

Acervo AMSK/Brasil - Foto: Sandra Candido/2024. Campo de Concentração de Lety.

“Alimentação dos prisioneiros no campo”

Marie Kryštofová (nasc. 1927)
František Daniel (nasc. 1921)
Marie Kryštofová (nasc. 1927)
Emílie Danielová (nasc. 1924)
B. V. (nasc. 1925)

Não são nomes aleatórios — são pessoas romani identificadas dentro de uma estrutura de perseguição e de extermínio de um povo.

Esses nomes pertencem a pessoas Rom e Sinti que passaram pelo campo de Lety. Esse campo funcionou como:

Local de detenção e trabalho forçado

  • espaço de fome, doença e morte
  • etapa de transição para deportação

A partir de 1942, muitos dos que estavam em Lety foram deportados para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, especificamente para o chamado “campo cigano” (Zigeunerlager).

Lá: milhares foram assassinados, famílias inteiras foram exterminadas, crianças, mulheres e idosos não foram poupados.

Em 2 de agosto de 1944, ocorreu a liquidação final desse setor — um dos episódios mais brutais do genocídio romani. Sobre muitos desses nomes, não há histórias completas preservadas.

O que sabemos é que eram pessoas Rom e Sinti, perseguidas, confinadas e, aqui, assassinadas pelo regime nazista.

O apagamento não começou com a morte — ele também se expressa na ausência de memória.


Nossa casa é Auschwitz.

Tão grande e preto. Tão preto e grande.

É aqui que nossas lágrimas fluem,

Destruindo nossa visão.

Foi aqui que eles esmagaram nossos apelos.

Para que ninguém ouça.

Foi aqui que eles nos reduziram a cinzas.

Para que os ventos se dispersem.

 

Rajko Djurić, 'Os anos de terror', traduzido por Julie Ebin. 



No dia 16 de maio de 1944, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, prisioneiros Romani (homens, mulheres, idosos e muitas crianças) do chamado “Zigeunerlager” resistiram à tentativa dos guardas da SS de levá-los às câmaras de gás.

Eles perceberam o que estava prestes a acontecer e, sem armas, se organizaram como puderam — com ferramentas, paus, pedras, e principalmente com a força coletiva. Quando os guardas entraram, encontraram um grupo unido, preparado para resistir. Diante disso, recuaram naquele momento.

Naquele dia, a execução em massa não aconteceu.

Por isso, o 16 de maio é lembrado como um símbolo de resistência Romani — especialmente porque incluiu mulheres e crianças que também se posicionaram.

Mas é importante manter a complexidade histórica: meses depois, em agosto de 1944, o campo foi liquidado e milhares de Romani foram assassinados. Ou seja, o dia 16 não apaga a tragédia — ele ilumina a coragem dentro dela.