A armadilha do romantismo: identidade, apagamento e
disputa política sobre o povo romani.
Uma análise sobre como
estereótipos históricos — romantizados ou criminalizantes — continuam
influenciando percepções, políticas públicas e processos eleitorais, impactando
diretamente os direitos e a existência do povo romani no Brasil.
Os preconceitos sempre tiveram duas faces — e continuam operando assim. Uma
romântica e outra ameaçadora. É o que aponta Ari Joskowicz, autor de Rain of Ashes (Chuva de Cinzas), ao reunir experiências e memórias
compartilhadas entre judeus e ciganos durante e após o Holocausto. Longe de ser
uma análise restrita ao passado, essa leitura permanece profundamente atual —
atravessa o presente e se manifesta, ainda hoje, nas formas como a sociedade
enxerga os povos romani.
A face romântica constrói uma imagem
aparentemente positiva: a dos romani como sujeitos livres, desvinculados das
pressões da modernidade, da propriedade, das rotinas de trabalho. Uma liberdade
que fascina — especialmente aqueles que observam de fora. Fascina os chamados
“ciganólogos”, mas também os “ciganos de alma”, que projetam sobre esse modo de
vida uma ideia de ruptura com a normalidade, quase como se fosse uma dádiva.
Mas há algo profundamente violento nessa
romantização. Trata-se da estetização da precariedade — a beleza da miséria, o
encanto da pobreza, o luxo simbólico da violência cotidiana. Uma leitura que
ignora a complexidade das existências romani e transforma resistência em
fantasia. É nesse ponto que emerge uma questão central: a necessidade de
pertencimento. Não como ideal abstrato, mas como condição vital, como direito
fundamental de existir com dignidade.
Na outra face — inseparável da primeira — está
a criminalização. Aquilo que antes era romantizado como liberdade passa a ser
interpretado como desvio. A ausência de vínculo com as convenções sociais
dominantes é convertida em suspeita, em ameaça. Romani são, então, enquadrados
como criminosos por definição, boêmios, vagabundos — mesmo quando não há
qualquer infração. Essa lógica constrói uma linha tênue e perversa: ora seduz,
ora rejeita, mas em ambos os casos desumaniza.
É fundamental afirmar: o estereótipo do
“cigano errante” nunca correspondeu à realidade — e ainda não corresponde.
Na Europa das décadas de 1920 e 1930, e também
nas Américas pouco depois — inclusive no Brasil —, havia (e há) uma enorme
diversidade de modos de vida entre os romani. Como destaca a professora Eve
Rosenhaft, muitos viviam assentados, integrados a comunidades locais,
especialmente em contextos rurais. Mesmo aqueles que viajavam mantinham
vínculos territoriais: possuíam casas fixas, estabeleciam redes econômicas,
exerciam ofícios como comércio de animais, afiação de ferramentas, produção
artesanal.
No Brasil, essa realidade não foi diferente.
Famílias romani se estabeleceram em diversas regiões, muitas vezes afastadas
dos grandes centros, organizando suas vidas de forma estruturada, ainda que
invisibilizada. O comércio teve papel central nesse processo, assim como a
escolha de territórios que possibilitassem condições mínimas de estabilidade e
conforto, considerando as especificidades do clima e das dinâmicas locais.
Ainda assim, há um elemento persistente — e
profundamente preocupante — que sustenta essa longa história de racialização e
criminalização: o nacionalismo.
Mesmo quando há pertencimento territorial,
histórico e cultural, ele é constantemente negado. Como aponta Joskowicz, se um
grupo não está associado ao imaginário do grupo étnico dominante que define a
nação, ele é percebido como estrangeiro — ainda que esteja ali há gerações.
Trata-se de um desenraizamento simbólico imposto.
No Brasil, isso se traduz de forma clara:
romani nascem aqui, vivem aqui, constroem suas histórias aqui — são
brasileiros. Ainda assim, têm sua legitimidade constantemente questionada.
Assim como ocorreu com rom e sinti na Europa, o pertencimento nunca é
plenamente reconhecido.
E é justamente nesse ponto que o debate
precisa se deslocar: não se trata apenas de combater estereótipos, mas de
enfrentar as estruturas que os produzem e sustentam. Romper com a romantização
e com a criminalização é, sobretudo, afirmar o direito à existência plena — com
identidade, território, memória e dignidade.
Diante disso, é impossível tratar essas construções como algo distante ou
restrito a outros tempos e territórios. As formas como os povos romani foram —
e continuam sendo — representados não são neutras. Elas atravessam
instituições, políticas públicas e decisões que impactam diretamente a vida
cotidiana, inclusive no Brasil.
Em contextos eleitorais, essas narrativas
ganham ainda mais força. O que se escolhe reconhecer, quem se escolhe ouvir e
quais realidades são legitimadas fazem parte de um processo de disputa. O
controle social, nesse sentido, não é apenas um instrumento técnico, mas uma
prática política fundamental: observar, questionar e intervir nas estruturas
que insistem em reproduzir exclusões históricas.
Ignorar essas dinâmicas é permitir que
estereótipos continuem operando como base silenciosa das decisões públicas. E
isso nos afeta — mesmo quando parece não dizer respeito diretamente ao
cotidiano de muitas comunidades romani no Brasil. Afeta porque define quem é
visível, quem tem acesso a direitos e quem permanece à margem.
Por isso, é urgente romper com leituras
simplificadoras que reduzem os povos romani a imagens únicas, sejam elas
romantizadas ou criminalizadas. A realidade é múltipla, complexa e viva —
construída por sujeitos que pertencem, resistem e existem todos os dias.
A disputa, portanto, não é apenas por
reconhecimento simbólico, mas por presença efetiva nos espaços de decisão. E
isso passa, necessariamente, por ampliar o olhar da sociedade e fortalecer
mecanismos de participação que garantam que nenhuma história seja contada de
fora.
Hoje, enfrentamos um risco real e contínuo: o de ver nossa
identidade ser capturada e substituída por um estereótipo romântico, sedutor e
profundamente irresponsável, que nos descola da realidade e distorce a nossa
própria história. Essa imagem, construída de fora para dentro, não reconhece a
complexidade das existências romani nem respeita as múltiplas formas de
pertencimento que se constroem diariamente. Ao contrário, simplifica, apaga e
fragiliza. Não se trata de uma disputa simbólica ou estética — trata-se de uma
violência concreta, que opera silenciosamente, legitimando exclusões e negando
direitos. E é preciso dizer com todas as letras: esse processo mata um povo.

