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8 DE ABRIL - DIA INTERNACIONAL DO POVO ROM


A 48 anos atrás, cidadãs e cidadãos da Romà de vários países, colocaram em prática, uma reunião que desde meados dos anos 50, com o fim da Segunda grande Guerra Mundial já vinha sendo pensada, entre pares, com um pensamento apenas: Quantos de nós restaram? Onde estão nossos filhos e filhas? Quem sobreviveu. Entretanto, essa reunião, mudaria a história da Romà no MUNDO.

Foto cedida a AMSK/Brasil em 2012 por Juan de Dios Ramiréz Herédia.


Atordoados, largados a própria sorte, excluídos do entendimento de que eram uma etnia e tratados á margem da história brutal do Holocausto, muita coisa havia mudado.

Migrações maiores começaram a acontecer, nomes e sobrenomes foram excluídos ou sistematicamente modificados, adaptações na linguagem, discussão sobre o pertencimento e decisões extremas de sobrevivência foram levadas a cabo. Era preciso permanecer vivo. Muitas famílias não conseguiram imigrar juntas, algumas se recolocaram em outras posições de trabalho, na esperança de enxergarem algo muito próprio da Romà: manter sua identidade a salvo e sua geração segura.
Nota-se que em outra escala, a Primeira Grande Guerra também fez isso. Com uma parte relativamente grande vindo para a América do Sul.

Não foi fácil, e ainda não é fácil.

Com a proximidade da reunião aos arredores de Londres, um alvoroço entre a Romà se estabeleceu. Alguns jamais haviam conhecido pessoalmente os que estariam alí, outros tentavam juntos algumas moedas para não faltar, mas, também houve quem não acreditasse e por medo e receio de ser mais forma de calar e identificar quem eram, não compareceram.

Sem dinheiro, sem ajuda e sem reconhecimento da tão poderosa Organização das Nações Unidas – ONU, a ideia de começar a se organizar de forma objetiva e pontual, focada na necessidade extrema de um novo extermínio em massa e com novas visões, já passados alguns anos do fim da guerra, havia no ar um misto de contradições, possibilidades e a certeza de que se algo não fosse feito, nada mais seria.

Dentre as discussões sobre direito a indenizações, pedidos formais de desculpas, plataformas de sobrevivência, apoio as famílias e outros, dois assuntos foram de extrema importância para reforçar a identidade da Romà: desconstruir a herança de uma identidade, formalizada por gadjes (gipsy, gitanos, ciganos, tzigane e tantas outras ...), retomando a construção identitária de si mesmo – até então, vários historiadores dentre outros, reforçaram a temática dos analfabetos/por isso escrevemos por vocês. Fato é que muitos já estavam estabelecidos e com isso, o estudo já fazia parte de algumas famílias, possibilitando nesse momento que a escrita começasse a avançar. Retirando os falsos conceitos, desconstruindo falácias e fantasias – infelizmente perpetuadas ainda hoje.


Um segundo ponto primordial foi o consenso de uma identidade visual, no caso a bandeira, com três dispositivos claros e realistas (por favor, desconsiderem traduções de internet que em sua forma folclorista, desconstrói toda uma identidade), uma identidade linguística e musical – retomando a prática de se contar a história através da música (várias vezes proibida). Neste caso, um hino que contasse o fato, relembrando no seu contexto total, os genocídios. (e sim, no plural)...

                 
Caminhei, caminhei por longos caminhos
Encontrei afortunados roma
Ai, roma, de onde vêm
com as tendas e as crianças famintas?
Ai, roma, ai, rapazes!
Também tinha uma grande família
foi assassinada pela Legião Negra
homens e mulheres foram esquartejados
entre eles também crianças pequenas.
Ai, roma, ai, rapazes!

Abre, Deus, as negras portas
para que eu possa ver onde está minha gente.
Voltarei a percorrer os caminhos
e caminharei com os afortunados roma.
Ai, roma, ai, rapazes!
Avante, roma, agora é o momento,
Venham comigo os roma do mundo
Da cara morena e dos olhos escuros
Gosto tanto como das uvas negras
Ai, roma, ai, rapazes!


****
Então, alguém pode nos perguntar: por que dentre tantos assuntos de extrema importância, destacar a música e a bandeira?

Porque o 8 de Abril, especialmente no Brasil, vem recheado de apropriações que desqualificam a data, rasgam a história e não deixam de produzir em nós esse misto de vergonha alheia e indignação. RESPEITEM O DIA INTERNACIONAL DA ROMÀ, O ROMANI DAY OU O DIA INTERNACIONAL DO POVO ROM.

Não façam da ignorância e da apropriação uma bandeira construída sobre o genocídio silencioso que ainda vemos acontecer até hoje. Na França, na Colômbia, no Brasil, na Itália, na Espanha, em Portugal, Inglaterra, Estados Unidos ... Não há espaço para a desconstrução da identidade dos Romà, para comemorações “alegres e festivas”, para apresentações e vídeos que desconstroem o sentido e o sentimento da construção dessa data...
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Os trechos acima fazem parte de uma das 6 publicações indexadas à serem concluídas no âmbito das Celebrações dos 10 anos da AMSK/Brasil, no Brasil e no exterior.

No ano em que completamos oficialmente 10 anos de luta na busca da implementação dos Direitos Humanos para a Romà no Brasil (a mesma de 1971), estamos realizando uma série de ações que reforçam nossas construções desde o início dessa caminhada em 2004, podemos:

1.  A melhor de se construir cidadania é através de uma rede, ninguém constrói nada sozinho, passando por cima dos outros ou se auto proclamando – a importância da escuta qualificada e da consulta;


2.  A escrita Decolonial é sem sobra de dúvida uma das formas mais eficazes de combate ao folclore e ao misticismo, fortemente arraigados na cultura brasileira;

3.  Lutar para combater a romafobia, significa, dentre outras coisas, garantir o combate ao racismo coletivo e ao racismo institucional;

4.  A ignorância, o preconceito e o racismo não podem ser a marca registrada da Romà no Brasil. A Educação pode e muda a trajetória, mas ela não vem sozinha, ela requer Resistencia. #ResistenciaRomani

A história não é só contada por quem ganha batalhas, mas por quem guarda memórias e documentos, isso amplia respeito, garante a dignidade humana e com isso abre caminhos. Isso salva vidas, preserva gerações. Na minha época eram as memórias e na de vocês os documentos.

Desde o meu Bisavô, Romão, a família já sabia que não seria fácil e não é, nunca foi.
                      
Há o medo de falar, o medo da perversidade, da discórdia e a pior delas, a inveja. Mesmo assim, não parem, não se calem. Somos mulheres e somos fortes. Vamos resistir.
FV – 9 de março de 2019
Trechos do livro: “Meus Pés ... in prelo”


AMSK/Brasil

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