"A CUSTAS DE CIGANOS, TODOS ROUBAMOS"




ZINGARA - PAOLO VETRI 
 
ORIGEM DOS CIGANOS

Adaptação de The Gypsies, de Jean-Paul Clébert, por Asséde Paiva
Revisão: Acir Reis

S
abemos que por séculos os ciganos foram chamados ‘egípcios’. De fato, bem antes de serem oficialmente registrados como vistos na Europa no século XIV, todos os charlatões e pelotiqueiros nas principais estradas foram por eles mesmos denominados ‘egípcios’. A razão desta designação jamais foi completamente esclarecida. Alguns autores aproveitaram ao verem os primeiros ciganos representados por famintas hordas que serviam no exército de Carlos Magno[1]. Se a verdade deve ser dita, é incerto se aqueles ‘egípcios’ conhecidos no oeste antes do século XV, se proclamavam vindos das margens do Nilo, ou se foram as populações sedentárias que os viram como mágicos vindos de fora do país, com a reputação superior a todas as outras neste campo [da magia].

Seja como for, os chefes destes grupos de ciganos que batiam às portas de nossas cidades davam-se o título de ‘duques do Egito’. Eles tinham suas razões mas que não explicam a origem egípcia. Eles chamavam-se também ‘Duques do Pequeno Egito’. E talvez este título mereça explicação. Aqueles ciganos caminharam através da Alemanha. Agora, em alemão Klein-Egypten (Little-Egypt) significa Egito Menor (nos velhos mapas alemães, Ásia Menor é indicada Klein-Asien). É possível que, neste sentido, Pequeno-Egito designe uma região do oriente da Ásia.

De qualquer modo, os ciganos trazem à colação o testemunho do Gênesis, baseados na profecia de Ezequiel: ‘Eu espalharei os egípcios entre as nações’.

A variante russa da tradição cigana traz outra origem egípcia: durante a travessia do Mar Vermelho, quando as tropas do Faraó foram engolfadas pelas águas, um jovem e uma jovem miraculosamente escaparam da catástrofe e formaram uma família que se tornou o casal — Adão e Eva — dos ciganos. A recorrente semelhança na tradição deste mito se repete nos termos pharaon, pharaona (em espanhol; faraón, faraona) em várias cerimônias ciganas.

Apesar disto, as lendas que propõem ou defendem a origem egípcia dos ciganos são poucas e não muito explícitas. Mais palavras e melhor vinculadas ao nosso conhecimento de história são as que dizem respeito a regiões da Mesopotâmia e antiga Ásia. Entre muitas coletâneas místicas, as do Padre Fleury e Chaplain sobre ciganos na França, foram colhidas no local que no presente se chama Gond Sindhu, mais tarde chamado o Sinti, no Oeste, um termo que ainda designa um grupo de ciganos. Os Gondes são conhecidos no Leste da Índia, no Nepal e Burma, mas um ramo original do povo, o Sindhu ou Sinti, de acordo com a tradição, voltou-se em direção ao ocidente, cruzou a fronteira da Índia e tornaram-se domesticadores de cavalos. Eles comerciavam pedras preciosas e foram capazes de adquirir lotes de animais e dirigiram-se lentamente em caravana e se acharam na Caldéia. Lá, os aborígines receberam-nos amavelmente, eles eram especialistas em metalurgia do bronze e ouro. Eles ensinaram aos caldeus, popularizaram o yoga, perigosas façanhas de pular, como caminhar através do fogo e outros exercícios espetaculares. Em troca, eles foram iniciados na ciência das estrelas. Isto aconteceu antes da era de Abraão. Os sintos devem ter permanecido longo tempo entre os caldeus; quando o patriarca deixou Ur parece que foi acompanhado pelos sintos à terra de Canaã. Quando, finalmente eles chegaram no Egito, de acordo com a mesma tradição, eles novamente devotaram-se a exibições diante dos faraós e assim ganharam o direito de asilo. Isto sumariza o mito da origem egípcia dos ciganos. Os sintos também se aliaram aos israelitas e casaram-se entre eles.

Esta lenda não está acima de suspeita. Ainda começamos aflorar os traços nos quais progrediremos para caracterizar os ciganos. Eles, agora, tomam formas familiares: os ciganos são vistos como saltimbancos, mágicos, ferreiros e comerciantes de cavalos.

Como estabelecido nestas pesquisas, eu estou reunindo algumas lendas através das quais os ciganos reconhecem-se uns aos outros, devo pedir paciência da parte do mais exigente leitor de comentários dos egiptologistas, a fim de dar outra visão que dizem vinda de kako Chaudy:

Depois do dilúvio, nosso ancestral Noel vivia com seus filhos, um dos quais Caamo (Cham), de quem descendemos em linha direta. Caamo zombou do seu pai porque estava bêbado, e seu pai amaldiçoou-o e disse que ele seria escravo; nós permanecemos escravos por longo tempo. E os descendentes dos irmãos de Caamo, especialmente aqueles de Jafeto (Jafé), foram cruéis naquilo que nos afetava. Um de nós, chamado Tubalo (Tubal-Cain), tinha descoberto o modo de fundir bronze e ferro e como forjá-lo. E fomos obrigados a trabalhar sob chicote.

Um dia, nos revoltamos e readquirimos nossa liberdade; e conquistamos um país chamado Kaldi (Caldéia). Este país tornou-se demasiado pequeno para nós e nossos chefes, e nossos velhos sábios ordenaram que separássemos em dois corpos [grupos]. O mais valoroso grupo preparou para deixar o ocidente em direção à Índia, trazendo a Arca e a nossa coleção de livros sagrados. Mas, antes de separarmos, o patrin [pista] (a arte de reconhecer sinais na estrada) foi ensinado para centenas dos nossos membros das tribos e foi predito que as crianças de todas as tribos encontrar-se-iam novamente em um futuro remoto.

Metade do nosso povo então emigrou em direção à Índia, da qual eles trouxeram nossa língua bem como nossa indústria de ouro e ferro, com outras ciências. É necessário, contudo, notar que, na partida, uma discórdia foi levantada entre certas tribos da caravana e nova separação ocorreu. Enquanto alguns tomaram a rota da Índia, os outros foram em direção oposta que os levou a um país chamado Chal (Egito). Uma parte continuou a viver na Caldéia, onde se aliaram com o povo da Assíria (Assyrians). Havia dois reis: Pudilo e seu filho romano Nirano, que tomou a liderança do novo Estado. Construímos imensa cidade chamada Babila (Babilônia,) a qual se tornou a capital... As coisas continuaram assim até o dia em que Cirusho (Ciro), soberano do povo da Persies (Pérsia), nos guerreou.

Tínhamos que deixar a Caldéia: parte de nosso povo dirigiu-se para o ocidente e outra em direção ao oriente... Uma parte de nosso povo assentou-se em Pelasgii (Antiga Grécia) e nas ilhas circundantes. Nossos outros irmãos receberam autorização para cruzar a Pérsia e chegaram à Índia, onde eles encontraram novamente aqueles outros que deixaram a Caldéia milhares de anos antes.

A narrativa continua. Os ciganos foram bem recebidos pelos Pelasgians, novamente porque tinham conhecimento no trabalho em metais. Com os Pelasgians supõe-se que eles trabalharam, fundaram Marselha e foram até o rio Ródano. Mas no momento isto não nos preocupa. Pode-se contudo adicionar que a mesma tradição afirma que eles construíram as pirâmides, o que significa que eles participaram como trabalhadores não-qualificados na sua construção.

Sem encorajar o plano que se tem adotado para este trabalho, uma coisa deve ser registrada aqui: de acordo com as duas tradições, os ciganos levam ao extremo sua máxima identidade, de que vieram da Índia ou da Caldéia. Isto dificilmente simplifica o problema, a distância entre estes dois locais é apreciável, mesmo para os nômades. Segundo o Padre Fleury, os ciganos vieram da Índia e emigraram para Caldéia. No registro de chefe Chaudy o contrário acontece. Esta divergência de tradição nos traz uma certeza de que os ciganos moraram em ambos os paises e viajaram de um para outro. Isto é adicionalmente notável porque nas lendas deste povo quase totalmente iletrado, cuja cultura é exclusivamente oral, encontramos nomes distintivos de nossa história quase iguais.

É nestas legendas, as quais têm sido incessantemente reformatadas, que os primeiros ciganólogos procuraram mínimas certezas, construíram suas hipóteses e viram que eles são mais pitorescos do que as próprias lendas.


Nota do tradutor: Esta tradução teve um objetivo, qual seja mostrar que autores famosos abeberam em águas de outros para escreverem as próprias obras. Podemos garantir que Virgínia Wolff, autora de muitos livros, entre os quais sobressai ORLANDO[2], se inspirou em Clébert para nos dizer que os ciganos construíram as pirâmides. De fato, construíram também os Jardins Suspensos da Babilônia e talvez ajudaram os judeus a construírem o Templo de Salomão. Quem sabe eles vieram das estrelas? — como nos ensina William Lindsay Gresham, in Os ciganos da estrela, a mais linda estória que jamais foi escrita sobre o povo cigano.

No mesmo romance Orlando, a autora se inspirou em Richard Francis Burton quando denominou o chefe dos ciganos “Rustum”. Este é o nome de um emir indiano citado por Burton (apud Edward Rice). Digna de aplausos foi a autora ao inovar a titularidade de ladrão de criança, pondo-a em um grão-senhor inglês. E assim justifica plenamente o adágio português: À custa de ciganos, todos roubamos. Quando os ciganos acampam próximo ao povoado, o costume é incriminá-los pelos roubos enquanto permanecem por ali. É que os “outros” aproveitam da sua má fama para pára cometer os furtos e possam culpar o povo do caminho... Que fique bem claro: ciganos têm famílias numerosas, não precisam roubar crianças.


[1] Our arm admits / The just and unjust... / Bohemians and Teutons...  (Surranus, 1265).
[2] É um livro extravagante. Até a metade, Orlando é homem, espadachim, tem amantes. Da metade até o final, Orlando é mulher, ama, apaixona-se,  tem filhos. O período do romance abrange 200 anos.

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