DE MIRAGEM A REALIDADE





Brasil/Brasília - Ciclo de Debates - abril de 2012


Bruno Gonçalves, Kalon de Portugal 09.04.12

Boa noite a todos, desde já agradecer à ONG AMSK e á UNB pelo convite para estar neste evento que muito me honra.

Nesta noite, irei centrar o meu discurso na situação das comunidades ciganas de Portugal, não esquecendo a situação do resto da Europa onde os roma estão numa situação pouco agradável. A Europa está mergulhada numa crise económica, que acarreta uma série de problemas, os ciganos encontram- se ainda omissos em suas sociedades, vivendo grande parte deles numa extrema pobreza por toda a Europa. Em vários países do Leste europeu é de lamentar os ataques de extrema - direita às comunidades roma, as politicas dos partidos de direita que estão no poder nos países da UE têm criado bodes expiatórios com um discurso populista no sentido de inflamarem e encontrarem culpados no meio desta crise económica. Inevitavelmente os roma têm sido um alvo preferido, aumentado dessa maneira a situação débil em que vive a maior e mais antiga minoria étnica da Europa.
Portugal, muitas vezes conhecido como um país de brando costumes e com tradição no bem receber, fica muito longe de tratar com dignidade os seus 50 mil a 75 mil cidadãos portugueses ciganos. Grande parte das comunidades ciganas em Portugal são sedentárias e vivem em bairros sociais que são autênticos guetos nas periferias das grandes cidades, bairros construídos com material de 4ª categoria que são autênticos barris de pólvora onde os choques culturais e flagelos sociais abundam… 

O Estado quando não omite os ciganos empurra-os para as margens da sociedade, estes bairros funcionam como o descarregar de pessoas indesejáveis…

Há algumas comunidades ciganas no Sul de Portugal que continuam a ser nómadas, não por estilo de vida mas porque são forçados a tal, vivem no meio das matas e bosques onde apenas lhes é permitido acampar por um período 24h a 48h, quando ultrapassam esse limite de tempo, as autoridades policiais expulsa-os e passa coimas altíssimas, estas pessoas apenas têm direito ao Sistema Nacional de Saúde…

Em termos de habitação há a nível de poder local sensibilidades e vontade de inclusão das comunidades ciganas, no município de Coimbra há um programa que permite ao município arrendar apartamentos e por sua vez subarrendar às famílias ciganas para assim terminar com o ciclo vicioso de realojar os ciganos em Bairros sociais que em nada levam à inclusão na sociedade. Um recente estudo que o município levou a cabo permite observar que o impacto no realojamento de famílias ciganas pela malha urbana da cidade é positivo…

 O Ciganinho Chico - Bruno Gonçalves

A educação é talvez uns dos maiores handicaps nas comunidades ciganas em Portugal, é notório a baixa escolaridade, isto porque os ciganos maioritariamente vendedores ambulantes nunca necessitaram de uma mão-de-obra especializada ou formação académica alta para a exercer a atividade. Hoje as sociedades cada vez mais são exigentes e os ciganos têm que acompanhar os novos tempos, hoje a escola tem que ser encarada como um trampolim para a inclusão. Claro que o sistema de ensino português está desenquadrado da realidade da composição da sociedade, cada vez mais diversa e multicultural, o sistema de ensino é formatador e alusivo às matrizes de valor da sociedade maioritária, desde 1945 que não há uma séria reforma educativa em Portugal, mas não pedíamos uma grande reforma educativa, apenas um sistema de ensino mais equilibrado que faça alusão no seu curriculum às várias culturas deste Portugal…

Para combater o absentismo dos alunos ciganos e de forma a promover o diálogo entre as diferentes culturas que normalmente estão de costas voltadas e facilitar o acesso efetivo dos ciganos á escola, criou-se no final dos anos 90 a figura do mediador cigano que tem como principal papel aproximar duas partes e facilitar o diálogo. A descodificação de linguagens, o acompanhamento das crianças e pais mostrando-lhes a importância da escola, divulgando a cultura cigana junto dos professores, a mediação de conflitos entre outras funções são o trabalho do mediador, que é uma ferramenta essencial para minimizar a problemática educativa dos ciganos…

Há cerca de 3 anos o governo português iniciou um programa “Mediadores Municipais Ciganos” que estão em 17 municípios do país e que trabalham as diferentes áreas (educação, saúde, emprego, justiça e outros). Este programa tem sido um sucesso, embora ainda haja mediadores ciganos trabalhando apenas uma temática, há mediadores ciganos em Hospitais e em escolas de diferentes níveis de ensino.

Há uma aposta na saúde, pois os ciganos têm uma esperança de vida menor do que a sociedade maioritária de 20 anos, o mediador é uma ferramenta para facilitar o acesso de uma forma salutar e informar das especificidades culturais das comunidades ciganas. É também sua função descodificar as linguagens e promover entre os técnicos de saúde a necessidade de formas de prevenção com áudio visuais com linguagens adaptadas, visto que as comunidades ciganas são grande parte delas iletradas, no Brasil dado que as comunidades dominam o romani, construir com ajuda das ONGS ciganas informação em romani…



 Brasil/Brasília -  abril de 2012

É deveras importante que os estados corrijam uma omissão secular e que possam de alguma forma darem aos ciganos o papel principal de conduzirem o seu próprio processo de inclusão, quem quiser empurrar o carro da inclusão que venha! Seja ele gadjé, cigano puro, descendente, se vier com a intenção de apenas contribuir para o processo inclusivo dos ciganos é bem-vindo! Mas quem dirige são os ciganos, porque é importante trabalhar com e não para os ciganos…

Se houver erros, lamentavelmente eles fazem parte do processo e aí teremos os nossos amigos para empurrarem o carro da inclusão! Um processo é composto de virtudes e defeitos, os obstáculos foram feitos para serem transpostos, eu acredito que de mãos dadas a inclusão dos ciganos passa de uma miragem a realidade!

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 Essa fala do kalon Bruno Gonçalves, vem de encontro com a realidade brasileira de hoje ... novamente somos colocados frente a frente com as dificuldades, as conquistas e as vitórias.
Mas há de se comemorar essa caminhada. Tendo os próprios ciganos como protagonistas de sua história, a AMSK/Brasil - uma associação totalmente brasileira e que abre suas asas na Europa e em breve nos EUA, vem cumprindo essa promessa feita.
 Lembramos e reforçamos as palavras ditas aqui no Brasil por Bruno, porque enquanto alguns se preocupam em gastar o tempo com o que chamamos de terrorismo e é passível de pena de 2a 8 anos de reclusão - difamação e calúnia, a AMSK trabalha e trabalha para que as futuras gerações possam alavancar sua própria condição, possam escrever sua própria história, sem estereótipo, sem tipo, sem arrogância, sem desconhecimento e sem ignorância.
Trocar a arma pela caneta, faz de homens como Zanata, Carlos Amaral, Daniel Rolim, Claudio Iovanovich, Alexsandro Castilho, Rogério Calon, Mio Vacite, Nélio Iancovitch, Ruiter e sr. Edinho, homens de primeira linhagem. Homens que compreenderam que suas responsabilidades com as comunidades a que pertencem são além de folclore.

De fato o caminho é longo e de fato não se deve andar sozinho e é por esse motivo, que homens e mulheres de bem, devem se aliar nas construções de dias melhores.
A AMSK/Brasil, se sente orgulhosa e feliz, por pertencer a essa família, que une forças, trabalhos e estudos, a fim de eliminar a ignorancia. Não é uma questão de sangue, vai além, o que nos une é uma relação chamada respeito.

Elisa Costa
Presidente da AMSK/Brasil

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