Havia uma escola no meio do caminho.

Reis (1998, p 38.) considera que: "O historiador tem como tarefa vencer o esquecimento, preencher os silêncios, recuperar as palavras, a expressão vencida pelo tempo”. Assim, ao utilizar a memória do grupo, o pesquisador lança mão de uma fonte histórica legitimada pelo conjunto das tradições desse povo, que por muito tempo deixou que somente o silêncio fosse uma manifestação de seus sentimentos. No trabalho de entrevista, quando perguntamos como os ciganos aprendem, e o que pensam sobre a escola, as respostas fluem em consideração a um saber construído com a participação de um outro elemento que é o mais velho. Para Francisco das Chagas, conhecido como Chaguinha:

Nós aprende com os mais véi. Eles contam as coisas para a gente aprender. Outras coisas, nós já nasce sabendo. Trocar, comprar, vender. Tudo isso a gente aprende com os mais véi. Eles sabe de tudo. Sabe até se vai dar certo a viagem que vamo fazer. Eu acho que nós aprende mais que os brasileiro. Nosso povo tem algum na escola, mas eu acho que em casa aprende muito mais. (CHAGAS, 1999)

A tarefa de narrar as histórias do grupo para alguns curiosos que se arriscam a uma entrevista é um ato especial de um líder de referência reconhecido no meio deles. Na comunidade, os ciganos Memeu, Maria Carnaúba e Chaguinha, são sempre indicados para tal fim. Le Goff (1994) afirma que existem nas sociedades sem escritas os especialistas da memória, os guardiões dos códices, os representantes da memória do grupo. São eles chefes de famílias, os mais idosos e responsáveis pela manutenção da coesão do grupo. Os relatos são sempre ilustrados com a emoção dos ciganos que mesmo sem revelar muito dos seus "segredos", se empolgam ao narrar fatos, ou seja, as suas memórias. Para a pesquisadora Kenski (1994), os estudos que tomam por base as memórias dos sujeitos tornam evidente que estes apresentam diferentes falas, dependendo das situações em que ocorram as recuperações das memórias. Acrescenta ainda:

[...] a memória é histórica na medida em que a recuperação das vivências não é feita de forma cronológica, linear, e sim, mediante a mistura dos acontecimentos que ocorreram em diferentes momentos do passado. A lógica das lembranças é a da emoção." (KENSKI, 1994, p. 48.).

No decorrer do tempo, os ciganos construíram um repertório cultural para a sua sobrevivência enquanto grupo. São identificados nos lugares onde passam por suas características próprias. Cor, roupas, costumes e linguagem ajudam a definir até mesmo por estereótipos quem são os errantes que seja em estradas, aglomerados urbanos ou terrenos baldios, armam suas tendas ou constroem suas formas de proteção. Quando entrevistamos um fazendeiro que costumava receber em suas terras, grupos de ciganos ele busca na lembrança as primeiras andanças dos ciganos em Flores, município de Florânia, o Senhor Severino Manoel de Oliveira afirmou:

[...] por muitas vezes recebi os ciganos. Eram ciganos que vinham de longe e traziam muitas novidades. Os ciganos davam notícias sobre os invernos por onde passavam. Curiosidades do seridoense que esperava pelos sinais do tempo. Eles diziam onde estava chovendo, nas bandas do Piauí. [...] Eram negociantes, trocadores. Vendiam tecidos, jóias. Abriam mesas e cortavam baralhos para quem tinha interesse. Liam a mão dos trabalhadores. Alguns moradores nem iam lá, nem deixavam suas filhas se aproximarem dos ciganos. Tinham medo da influência. Mas era o preconceito. [...] Sim, e cada vez mais os ciganos ficavam conhecidos do lugar. Armavam suas barracas perto do açude. Alguns deles eram protegidos de alguns coronéis ou fazendeiros. Mas, para alguns era sinal de mau agouro.( OLIVEIRA, 1999).

 A diversidade de vida que circunda o mundo cigano nos leva a confundi-los com outros tipos de nômades: estão em vários lugares, e muitas vezes nem percebemos. Encontramos ciganos em circos, em teatros, parques de diversões. São músicos, artistas, artesãos, poetas, operários, professores, profissionais liberais, funcionários públicos, atores e atrizes da televisão, e até mesmo empresários. Costumeiramente, as mídias somente exibem realidades de vida de alguns grupos opulentos de riquezas materiais. Por outro lado, há uma tendência generalista que busca uniformizar o termo cigano. Os dicionários elencam muitos significados para essa gente. ...

 Chapéus, Roupas coloridas, jóias, lenços, pés em botas ou descalços. Esse povo “errantes” que possue as estradas como morada, as cidades como passagens e a imagem de si na vida, nos leva a navegar em mares de ansiedades, de outras descobertas e de novas construções historiográficas.

Prof. Ms. Flávio José de Oliveira Silva
  Professor, pedagogo, especialista em Formação Docente, Mestre em Educação pela UFRN, membro do Comitê Educação em Direitos Humanos,Educação do Campo e Relações Étnicos Raciais do RN, Conselheiro Titular do Conselho Estadual de Assistência Social – CEAS/RN.




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