LESHJAE QUER ROMPER O PRECONCEITO COM A SUA ARTE

 A matéria abaixo é de um caderno jornalístico de primeira qualidade e o comentário a seguir é nosso.
 Respeitando os muitos grupos musicais que estão por aí, esse é especial. Trabalho e respeito, realidade e coesão. "A maneira mais digna e verdadeira de se preservar um povo, é entrar em contato com a sua cultura real, não a fantasiosa." Essa é a mais pura verdade. 
 Quando o som do violão rompe o silêncio ... alí estão eles, a mais pura música, orgulho da Rromá. Quando se acende as luzes, alí vão elas ... mulheres que dançam embaladas a tradição e as estórias. Não é técnica somente, é genética. Não é apenas dinheiro, é prazer e liberdade, não é apenas se fantasiar, banar saias, usar diclô colorido ... é a herança de muitas estradas, muitas perseguições e muito sofrimento, aliado a vontade de viver, a necessidade de preservar e o orgulho de trazer o sangue cigano. 
 Muitos ainda pensam que o que move a dança rromani é apenas o nome. Não. ´Por isso, hoje no Brasil, poucos são os grupos que priorizam a quebra do estereótipo em suas apresentações, e o Leshjae é um desses raros encantos.
 Quando falamos em Povos Rromani no Brasil, falamos de respeitar as muitas vertentes, os muitos dialetos e todos os desdobramentos políticos que se instalam junto ao tema. Se pensarmos que as culturas tendem a não se manterem estagnadas e sendo essa uma técnica sabiamente usada pelos rromani no Brasil e em todo o mundo, o Leshjae carrega consigo a estrela conscienciosa da tradição de um povo; povo esse que atravessou países, sobreviveu a reis, rainhas e papas e que ainda carrega em sua história recente a marca do porrajmos (holocausto rromani) e sobrevive todos os dias, as calúnias, enfrentamentos e descaso de muitos governantes e gestores. 
O Leshjae é composto de brasileiros e brasileiras de etnia rromani, que usam o próprio corpo, sua expressão e sua voz, no enfrentamento a desigualdade, a marginalização de uma etnia e ao estereotipo extremamente pejorativo ... Vida longa e feliz ao Leshjae.

AMSK/Brasil


O grupo já se apresentou no Brasil e em Trebisov, na Eslováquia, no festival de música cigana Gypsy Fest (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1279187)

Maceió (AL). Há diversas formas de se buscar pôr fim ao preconceito e à intolerância em torno dos ciganos. Um grupo formado por pessoas que pertencem à etnia, contando com a participação de amigos, escolheu a arte. É por meio da música e da dança que o Leshjae, em Maceió (Alagoas), procura desmistificar muitas lendas falaciosas criadas ao longo do tempo.


O colorido e a magia do grupo que divulga a cultura cigana se destacam
Foto: Cid Barbosa

O líder do grupo, Ruiter Djurdjevjch, explica que a ideia da formação surgiu em 2007, quando chegou a Maceió, vindo de São Paulo para casar-se com sua prima, Anne Kellen. Além dos dois, integram o Leshjae Fábio (Pepe), Neide, Carol, Ingrid, Eliane, Bela, Neide Hanna, Geysa, Sara e Leila. "Hoje, é muito difícil encontrar ciganos que cantem ou componham música no nosso idioma, no nosso dialeto tradicional. Queremos resgatar isso, inclusive, para dentro da casa das famílias ciganas".

Ruiter conta que foi convidado a participar de uma entidade internacional ligada à etnia, chamada Khetanes, graças ao trabalho que já desenvolvia com o grupo Leshjae, sem nenhum incentivo financeiro ou apoio governamental. "No dia a dia, a gente vem tentando desmistificar a figura do cigano que, ainda no século XXI, é difamado a partir de ideias absurdas, estapafúrdias sobre a nossa comunidade".

José Daniel Juarez Rolim, que reside em São Paulo, mas mantém contato frequente com Ruiter, encontrava-se em Maceió, por ocasião da visita da nossa equipe de reportagem. Estudante de Direito, ele denuncia o preconceito no País: "Ele existe e é velado. Se um cigano apresenta uma queixa na Polícia, ela precisa ser averiguada. Isso, na prática, não acontece, e nós não temos uma mídia para denunciar ou um órgão público onde possamos bater na porta e clamar por Justiça. Infelizmente, tem aquela linha de raciocínio: cigano não vota. Não vou condicionar a minha imagem à de um cigano, que é nociva. Só que ninguém conhece os ciganos. Somos brasileiros. Apenas temos nossa etnia cigana, nossa cultura, mas exigimos ser conhecidos e tratados como cidadãos brasileiros. Queremos respeito étnico".

Daniel realiza palestras sobre a etnia à qual pertence. "Infelizmente, somos um milhão e seiscentos mil ciganos ignorados pelo governo. Cada vez que sou chamado para alguma atividade em Brasília, eles dizem que cigano é um povo invisível. Isso não é verdade. Somos pessoas normais, que necessitam de atendimento médico, de todos os direitos que o cidadão brasileiro possui e que nós não temos acesso".

Ele informa que "o Brasil é o único país do mundo a ter tido dois presidentes ciganos, Washington Luís e Juscelino Kubitschek. Mas, são fatos omitidos pela história. Saindo das nossas fronteiras, podemos citar figuras de destaque, como Elvis Presley, Salvador Dalí, Charles Chaplin, Yul Brinner e Greta Garbo".

O estudante explica que o preconceito vem de todos os lados e é difícil eliminá-lo. "Até recentemente, os dicionários traziam o sinônimo de cigano como ladino, trapaceiro, vagabundo e ladrão. Como combater um preconceito que é histórico se toda a máquina vai contra isso?".

Segundo Daniel, há quase dois anos, num programa de televisão veiculado em rede nacional, "o apresentador disse que as mulheres ciganas fedem, além de serem ladras e trapaceiras. Minha mãe não fede, minha esposa não fede, as minhas duas filhas não fedem. Isso ainda não teve nenhum retorno judicial, sequer uma retratação da emissora. Simplesmente, foi ignorado".

Atrocidades

Na Romênia, prossegue Daniel, "ainda hoje, o governo pega ciganas à força e extirpa o útero e as larga na rua suturadas. Se vai morrer de hemorragia ou não, o problema é dela. França e Itália estão expulsando os ciganos de lá. Eles são franceses e italianos. Para onde nós vamos?".

Ruiter cita outra atrocidade. "Há cerca de três anos, fui convidado para participar de um festival de música cigana na Eslováquia com o mesmo propósito, de diminuir a distância entre os ciganos e os não ciganos, o que, na Europa, é complicado. Aqui é velado, o que é mais perigoso, pois você confia numa pessoa e, a qualquer momento, ela pode te apunhalar pelas costas. A primeira notícia que tive lá de uns primos humildes é que um vizinho teve uma filha brutalmente queimada com querosene por tentar se matricular em uma escola de não ciganos. Os pais dos outros garotos pegaram a menina, de apenas 3 anos, em casa e, após amarrarem suas mãos, jogaram querosene nela e atearam fogo. Ela teve 89% do corpo queimado e não sobreviveu".

Injustiças

A intolerância no Brasil também é enorme. Ruiter informa que, há pouco mais de um ano, um conflito entre um cigano e uma pessoa da comunidade em Santo Amaro, Bahia, resultou na morte do não cigano. "Convido vocês a acessarem o vídeo na internet. São 18 minutos de filmagem do acampamento sendo completamente incendiado".

Ruiter frisa que, "durante esse tempo, você não vê uma viatura da Polícia ou dos Bombeiros ou qualquer ambulância chegando. Ninguém se prontifica a acudir aquelas pessoas inocentes, incluindo crianças e velhos. O que se vê é um circo formado, uma coisa absurda que faz lembrar o Coliseu Romano, onde pessoas assistiam às outras pessoas morrendo em agonia e vibrando. É uma barbárie tremenda".

A situação suscitou um questionamento: "Diante de uma realidade dessa, qual o futuro que terá o meu filho quando se autoafirmar cigano? Fico preocupado com isso pois, graças a Deus, tive a oportunidade de estudar, fiz faculdade, me formei, trabalho, tenho o meu sustento, sigo as leis dos brasileiros, enfim, faço tudo que o cidadão brasileiro faz. Porém, o fato de ser o que eu sou, faz com que as pessoas me vejam com indiferença".

Tradições

Ruiter explica que "a sociedade cigana é tradicionalmente familiar, com dois pilares fundamentais, a criança e o velho, que é a experiência de vida. Tudo que você precisa, busca naquela fonte. É o nosso passado, nossa referência, nossa cultura. E a criança é o nosso futuro. É a garantia de que nós, mais velhos, teremos um fim de vida bom, aprazível. A gente percebe que o não cigano não valoriza o velho. Você jamais terá notícia de um cigano colocando um velho no asilo. Ele pode estar com a doença que for, à beira da morte, que o seu filho ou neto estará ali, ao lado dele, em sua casa, até o fim. Entendemos que aquele é o lugar dele".

Sobre o patriarcalismo, Ruiter frisa que "as pessoas nos julgam machistas. Na nossa cultura, o sangue cigano é passado de pai para filho, de filho para neto, de neto para bisneto. Existem casos registrados ultimamente de ciganas que se casam com não ciganos. O filho dessa junção, para nós, não é cigano".

Bullying

De todas as etnias, os ciganos são a mais discriminada. Seus direitos, na realidade, praticamente inexistem. "O Brasil tem 513 anos. Somente há um ano, começou uma discussão conosco para que se desenvolva uma política de saúde. Por que não foi feito isso antes? Somos vítimas de bullying o tempo todo, nas ruas, nas nossas moradias, nas barracas que, pela lei, é nosso abrigo, nossa casa. Apesar de não ter portas e janelas, não pode ser adentrada a qualquer momento", enfatiza Ruiter.

Com relação à escola, o problema é mais grave. "Para que vou deixar meu filho numa escola? Para ele ser enxotado, para fingir ser brasileiro e, somente em casa voltar a ser cigano? Como funciona a cabeça de uma criança que precisa ser duas pessoas ao mesmo tempo? Que adulto será esse que, desde a tenra idade, já sofre uma pressão psicológica para ser o que não é? Isso é tão complexo que as autoridades preferem não discutir. Não é que o cigano só queira reclamar. Infelizmente, as perspectivas de futuro são nulas. A gente vai vivendo enquanto der".

Outro aspecto da cultura que chama a atenção é a itinerância. Ruiter afirma que "isso surgiu por necessidade, por conta da perseguição nua e crua. Aqui no Brasil, o nomadismo ainda existe, mas é regionalizado. São poucas as famílias que vão do norte ao sul do País. Costumam transitar apenas de um Estado para outro e em lugares que já conhecem. Como muitos, fazem trabalhos artesanais ou esporádicos, como na construção civil. Eles têm o hábito de levar a família para aquele lugar onde existe mercado de trabalho".

Daniel revela que já levou proposta a Brasília para deputados e senadores, no sentido de que cada município demarque uma área para permitir os acampamentos ciganos. "Eles poderiam dispor de um espaço de 5 mil metros quadrados. Bastava deixar um ponto de água e um ponto de luz. A gente faz questão de pagar por isso. Existem espaços nas cidades para parques, para circos e outros eventos, pois gera renda, mas nunca para ciganos".

A cada dia que passa, encontrar um lugar para acampar se torna mais difícil. "Quando isso acontece, ao sairmos, temos que deixar uma pessoa, do contrário, ao voltarmos, não vai ter mais aquele espaço. A Prefeitura já murou, já cercou ou já plantou. Em São Paulo, a Prefeitura teve a capacidade, em espaços onde a gente montava acampamento, de plantar árvores a cada metro e meio. Com isso, se quisermos ficar ali, seremos acusados de estarmos cometendo um crime ambiental. Essa é uma maneira velada de querer nos expurgar".

FERNANDO MAIAREPÓRTER

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