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sábado, 31 de agosto de 2013

APRECI/PR e CEBRAS





Na página 08 do jornal do CEBRAS (Conselho Mediúnico do Brasil), edição de agosto/2013 mais um desdobramento do Brasil Cigano – A APRECI/PR e o CEBRAS, firmam um convênio em prol da luta contra o preconceito, a discriminação e o estereótipo. O Povo Romani agradece. 


Essa parceria reforça outras ações feitas no Brasil e que levam para um caminho de união e de CONHECIMENTO. 


A ignorância gera preconceito e é através da união, do respeito e do entendimento, que as coisas andam.

AMSK/Brasil

Sesau realiza I Encontro dos Povos Ciganos de Alagoas

Outro desdobramento do Brasil Cigano, agora em Alagoas. A força dos mais jovens vão abrindo caminho onde ninguem conseguia passar. Sem firulas, com ações, arregaçando as mangas, com esforço próprio e apenas com um pensamento: Somos todos irmãos. Deu certo e dará muito mais, esse é apenas o começo e está acontecendo em todo o Brasil. Para lutar por políticas públicas é preciso entender que a discórdia e o isolamento não levam a nada, apenas reforçam o preconceito e o estereótipo. Ruiter e Anne Kellen, lovaras, gente que faz acontecer.

 AMSK/Brasil

Sesau realiza I Encontro dos Povos Ciganos de Alagoas

 http://www.saude.al.gov.br/ciganos/noticias/sesaurealizaiencontrodospovosciga
Encontro busca fortalecer o intercâmbio entre as comunidades ciganas de Alagoas e o acesso às políticas públicas de saúde
Foto: Olival Santos
Sesau realiza I Encontro dos Povos Ciganos de Alagoas
Cigano José Ruiter proferiu palestra sobre a cultura cigana em Alagoas
Repórter:
Fabiano Di Pace

Para fortalecer a identidade cultural dos povos ciganos e suas ligações com o Sistema Único de Saúde (SUS), a Secretaria Estadual de Saúde (Sesau) realizou o I Encontro dos Povos Ciganos do Estado de Alagoas. O Evento aconteceu nestas quinta (29) e sexta-feira (30), na Associação das Irmãs Filhas do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Serraria, em Maceió.


Durante o encontro, os participantes assistiram a apresentações de dança, debates sobre a saúde do povo cigano e sua relação com o SUS, inserção da comunidade cigana no Programa Saúde da Família (PSF), além da apresentação de movimentos de educação popular em saúde. No período da noite, os presentes participaram de uma noite cultural com temas ligados a cultura cigana.
De acordo com a diretora de Promoção a Saúde, Eliana Padilha, o encontro é uma iniciativa pioneira do governo do Estado e marca o compromisso da administração em garantir a inclusão de toda a população na atenção a saúde. “A garantia dos direitos sociais e culturais do povo cigano é um compromisso do governo estadual que promove a aproximação desta comunidade com o SUS”, explicou.
Também presente ao evento, a gerente de Políticas de Promoção de Equidade da saúde, Margarete Magalhães, lembrou que a aproximação e integração dos chamados povos tradicionais faz parte das diretrizes adotadas pelo Ministério da Saúde. “Mostrar às comunidades ciganas como funciona o SUS e quais são os direitos de cada cidadão brasileiro, constrói um senso de cidadania importante para a construção de um futuro mais integrado e justo para todos”.
Ainda durante o evento o representante José Ruiter fez uma apresentação sobre a história do povo cigano e sua identidade. Ruitter destacou que o povo cigano passou por grandes provações em sua história, passando inclusive pelo massacre de metade de sua população durante o holocausto na II Grande Guerra, e que até os dias de hoje a população cigana é vista com desconfiança. O palestrante lembrou que a única forma de vencer a ignorância e o medo é promover o convívio harmônico em cada cultura é respeitada.
Durante a noite, os presentes tiveram a oportunidade de assistir a apresentação do grupo Leshja que mostrou um espetáculo de dança cigana. “A dança é uma parte muito forte da cultura cigana e é sempre um privilégio compartilha-la”, disse a coordenadora do grupo Anne Kellen. Após as apresentações culturais foi servido o Midjadra, prato típico da culinária cigana, que foi acompanhado da bebida típica Sifrite.
Participaram do encontro, cerca de 70 pessoas entre representantes de comunidades ciganas, residentes da Uncisal, Secretaria Estadual de Educação, Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) e Universidade Federal de Alagoas (Ufal). 



Fonte: Ascom / Saúde


Aparecida realiza I Conferência Promoção da Igualdade Racial

 Quando se olha para o futuro, se retira a mediocridade e a ignorância do caminho, se constrói uma via de saída. Essa foi a primeira vez que um indivíduo da comunidade rromani é recebido, aceito e apoiado em Aparecida de Goiânia. Sabe porque? 

Construir é o caminho e o Sr. Alexsandro Castilho fez isso. Juntou forças, colocou um dedo de sacrifício, apostou no respeito e abriu as portas da sua comunidade para o diálogo, apesar das diferenças. 

Esse é mais um desdobramento do Brasil Cigano, abrindo as asas.

AMSK/Brasil

Aparecida realiza I Conferência Promoção da Igualdade Racial

22/07/2013 - 16:08
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Aparecida de Goiânia, 22 de julho de 2013 – A Prefeitura de Aparecida realizou neste final de semana, dias 20 e 21, a I Conferência Municipal de Promoção da Igualdade Racial do município. O evento aconteceu na Faculdade Sudamérica e contou com a presença de diversos segmentos representativos, historicamente vitimados pela violência e preconceito, como quilombolas, ciganos, índios e integrantes de religiões afrobrasileiras.
O evento teve como tema a "Democracia e desenvolvimento sem racismo: por uma Aparecida afirmativa" e foi idealizado pela Assessoria Especial de Políticas de Igualdade Racial e Direitos Humanos do município, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. A abertura oficial contou com a presença do vice-prefeito Ozair José (PT), além de diversas lideranças locais e regionais.

A abertura foi marcada pela tradicional "puxada de rede" e desfile das mulheres do Jardim Cascata. Como atração cultural houve apresentação da Banda Visual Ilê, do Bloco Cultural Afoxé Onilewá, Grupo de Capoeira Roda Grande, o grupo de rap Expressão do Gueto e Trtilha e do grupo de Hip Hop Mr. Gil.
Em seu discurso, o vice-prefeito Ozair José lembrou das diversas obras voltadas à inclusão, como as 73 casas do Residencial Vila Delfiori, destinadas à comunidades quilombolas, a implantação do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG) e do campus da Universidade Federal de Goiás, que será iniciada ainda este ano. "Nossa administração tem a preocupação de melhorar a qualidade de vida da poopulação como um todo e isso passa pelo desafio de promover políticas públicas para a promoção da igualdade racial e de gêneros", enfatizou Ozair.
Escolha de delegados e estratégias de atuação
Durante a conferência, além da escolha dos delegados para as conferências estadual e nacional, foram definidos também quatro Grupos de Trabalho: o grupo de Estratégias para o Desenvolvimento e o Enfrentamento ao Racismo; outro para Políticas de Igualdade racial em Aparecida de Goiânia – Avanços e Desafios; o terceiro para tratar de Arranjos Institucionais que assegurem a sustentabilidade das políticas de igualdade racial, fórum de gestores, conselhos e ouvidorias; e o quarto para Participação Política e Controle Social.
O assessor especial para Políticas de Igualdade Racial e Direitos Humanos do município, André Luiz de Souza, lembrou que Aparecida foi uma das primeiras cidades a criar uma pasta destinada a trabalhar políticas sobre o tema. “Foi uma conquista para a cidade, que tem carrega tantos traços de nossos antepassados em sua cultura”, frisou.
"Estamos cada vez mais unidos na luta contra o preconceito contra as religiões afrobrasileiras que, infelizmente, ainda é muito forte em Aparecida. Nossa cultura é milenar. O uso da água benta, por exemplo, foi instituída por nós, assim como a ‘corrente do sal grosso’ ou a tradição de vestir de branco na sexta-feira. Existe um uso deliberado da desinformação para a autopromoção, baseado na exploração de preconceito contra o povo que ergueu este país e isso infelizmente ainda é muito forte", discursou José Luiz Dias, presidente do Conselho das Associações de Umbanda e Candomblé do Estado de Goiás.
A Conferência Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Aparecida foi realizada com apoio do Ministério da Promoção de Igualdade Racial; PUC-GO; Universidade Federal de Goiás (UFG); Universidade Estadual de Goiás (UEG); Câmara Municipal de Aparecida; Secretaria de Estado de Políticas para Mulheres e Promoção de Igualdade Racial (Semira); Faculdade Sudamérica e do Grupo de Muheres Negras Dandara no Cerrado. Os delegados eleitos neste final de semana representarão os pleitos do município nas conferências estadual e nacional, previstas para os meses de agosto e novembro, respectivamente.
PRESENÇAS – Também participaram do evento, o deputado federal Rubens Otoni (PT); o presidente da Câmara dos Vereadores de Aparecida, Gustavo Mendanha (PMDB); os vereadores Ezízio Barbosa (PMDB), que também preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, e delegada Cybelle (PSDB); além dos secretários Eliezer Guimarães (Cultura e Turismo), Ozéias Laurentino Júnior (Comunicação), Euler de Morais (Governo e Relações Institucionais) e Valéria Pettersen (Projetos e Captação de Recursos); e presidente regional da Associação de Instituições Coletivas Românicas (Aicron Brasil-GO), entidade representativa da cultura cigana no Brasil, Alexsandro Castilho.

 http://www.saude.al.gov.br/ciganos/noticias/sesaurealizaiencontrodospovosciga

Fonte: Frederico Noleto - Secom
Foto: Fabiano Araújo

terça-feira, 27 de agosto de 2013

DADOS ESTATÍSTICOS SOBRE OS POVOS ROMANI NO BRASIL: AVANÇOS E RETROCESSOS


Verdade seja dita. Desde 2009, uma importante fonte de dados sobre os povos romani (ciganos) no Brasil é a Pesquisa de Informações Básicas Municipais – Perfil dos Municípios Brasileiros (MUNIC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A MUNIC tem periodicidade anual e abrange o universo das prefeituras dos 5.561 municípios brasileiros. Em 2010 esta pesquisa não foi realizada, em razão da prioridade dada ao Censo Demográfico. Porém, em 2009 e 2011 a MUNIC levantou dados inéditos sobre os povos romani no Brasil, pois incluiu perguntas sobre a existência de acampamentos ciganos nos municípios e sobre a implementação de políticas públicas municipais para este segmento.

Parece pouco. Afinal, com estas perguntas, a MUNIC levantou dados sobre uma realidade que, atualmente, atinge segmentos minoritários dos povos romani, ou seja, grupos que ainda vivem acampados. Aliado a isso, há o problema da subnotificação, pois a coleta dos dados da MUNIC é feita em consulta aos gestores e gestoras municipais. Porém, com estas perguntas a MUNIC revelou um retrato sem precedentes da presença dos povos romani no Brasil e tornou possível uma primeira aproximação de uma realidade ainda pouco conhecida no âmbito da gestão pública e da sociedade em geral.

Em 2009, a MUNIC revelou a existência 290 acampamentos ciganos em municípios distribuídos em 21 unidades da federação (UF). Em 2011, foram identificados 291 acampamentos ciganos localizados, da mesma forma, em municípios distribuídos em 21 UF. A MUNIC revelou, ainda, que a maioria destes acampamentos se localiza em municípios com população de 20 a 50 mil habitantes, e com uma maior concentração nos estados da Bahia, Minas Gerais e Goiás. Em 2011, a MUNIC demonstrou também a existência de um considerável déficit em termos de implementação de políticas públicas para os povos romani. Apenas 40 dos 291 municípios com acampamentos ciganos desenvolviam algum programa ou ação para este grupo étnico – o que corresponde a 13,7% do total – e apenas 29 dos 291 municípios com acampamentos ciganos possuíam área pública destinada para este fim, ou seja, pouco menos de 10% do total. Lembramos que a garantia das condições básicas para a realização de acampamentos ciganos em todo o território nacional é uma das ações do Programa Nacional de Direitos Humanos III (PNDH), instituído por Decreto Presidencial em 2009.

Todas estas informações foram geradas a partir do trabalho de análise dos microdados da MUNIC, realizado de forma inédita pela AMSK/Brasil, e publicizadas pela primeira vez durante o Ciclo de Debates – Ciganos: uma história invisível, ocorrido em Brasília-DF em abril de 2012. Possuem um valor inestimável, na medida em que mostram as lacunas existentes hoje em termos de políticas públicas para os povos romani em nosso país, oferecendo uma importante orientação para a atuação do governo federal e dos governos estaduais e municipais.

Na expectativa de dar seguimento à construção desta série histórica a partir dos dados da MUNIC, a AMSK/Brasil se debruçou sobre os recentes resultados da MUNIC 2012, divulgados pelo IBGE em julho de 2013. Porém, na contramão de todos os avanços que vêm sendo observado no âmbito das políticas públicas nos dois últimos anos, nos deparamos com a retirada das perguntas referentes a acampamentos ciganos do questionário desta pesquisa.

Além deste enorme retrocesso, neste mesmo período constatamos a perda de mais uma oportunidade inédita de coleta de dados nacionais sobre os povos romani no Brasil. A Pesquisa de Informações Estaduais – Perfil dos Estados Brasileiros (ESTADIC), também realizada pelo IBGE, no ano de 2012 incluiu um bloco de perguntas sobre ações desenvolvidas pelos governos estaduais no tema da inclusão produtiva. Neste bloco, importantes informações sobre as políticas de educação, qualificação profissional e intermediação de mão-de-obra, empreendedorismo e microcrédito foram coletadas. A partir da parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) foi incluída uma lista dos possíveis grupos para os quais as ações de inclusão produtiva são direcionadas, seguindo como orientação as categorias adotadas no Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico), inclusive aquelas relativas aos grupos populacionais tradicionais e específicos. Porém, nos surpreendeu a não inclusão, nesta lista, de importantes segmentos populacionais já identificados no CadÚnico, dentre eles os povos romani e as comunidades de terreiro. Os dados sobre esses importantes segmentos cairão, mais uma vez, na vala comum do item “outros grupos”. A perda desta oportunidade de coleta de informações fundamentais sobre os povos romani – e, neste caso, também sobre as comunidades de terreiro – se deu por razões que sequer temos condições de pontuar, pois a inclusão destas categorias poderia ser feita sem qualquer custo adicional para a execução da pesquisa.

Em diversas oportunidades a AMSK/Brasil destacou a importância da inclusão das famílias ciganas como uma categoria no CadÚnico, dentre os denominados “grupos populacionais tradicionais e específicos”. A inclusão desta categoria no CadÚnico tem propiciado a oportunidade de gerar dados importantíssimos sobre as comunidades ciganas mais pobres e mais vulneráveis a diferentes violações de direitos. Exaltamos a importante ação do MDS de elaboração do Guia de Cadastramento de Grupos Populacionais Tradicionais e Específicos, um material de capacitação de gestores públicos que visa fortalecer a Busca Ativa e o processo de cadastramento destes grupos, contribuindo para seu acesso a todo um conjunto de programas sociais do governo federal. Mais do que isso, essa publicação contribui fortemente para o reconhecimento das famílias ciganas como beneficiárias de políticas públicas, e os homens e mulheres de etnia cigana como sujeitos de direitos.
Neste ano de 2013, nos deparamos com enormes avanços com relação ao reconhecimento dos povos romani como parte do conjunto de cidadãos e cidadãs brasileiras. Estes avanços revelam o compromisso e a capacidade de resposta do Estado brasileiro a uma demanda que, em países da União Européia, levou cerca 40 anos para ser atendida. O Brasil tem hoje a oportunidade de criar modelos de inclusão e respeito aos povos romani e se destacar, mais uma vez, no nível internacional nas discussões sobre a superação do racismo e a promoção da igualdade racial e étnica. Porém, para que este enorme potencial se concretize, a omissão, o desconhecimento e as dinâmicas de racismo institucional necessitam ser superadas e colocadas sob constante vigilância para que seus efeitos perversos sejam coibidos.


No ponto em que estamos não podemos permitir retrocessos. A exclusão das perguntas referentes a acampamentos ciganos e a políticas públicas direcionadas para este segmento da MUNIC 2012 gerou uma lacuna de informação e ocasionou a não captação de dados que certamente revelariam importantes avanços com relação às políticas públicas municipais para os povos romani, bem como os desafios que ainda persistem nesta área. Da mesma forma, a não inclusão dos povos romani entre os segmentos da população listados na ESTADIC 2012 gerou a não captação destes mesmos avanços e desafios no nível da gestão estadual.

Lembramos que o Brasil teve uma atuação destacada na III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial a Xenofobia e Intolerância Correlatas, realizada em Durban, em 2001 e o Programa de Ação nascido desta Conferência afirma a importância da geração de dados como um aspecto fundamental para a superação da discriminação racial e do racismo. Lembramos, ainda, que o Brasil tem sido reconhecido internacionalmente por sua capacidade de gerar dados desagregados por cor, raça e etnia, e que estes dados têm feito uma diferença fundamental no processo de elaboração de políticas públicas para milhões de brasileiros e brasileiras.


Não podemos esquecer que quando discutimos estatísticas, não se trata apenas da apresentação de taxas e percentuais. Quando discutimos estatísticas, estamos falando de pessoas, de cidadãos e cidadãs, e sobre a possibilidade de conhecermos melhor suas condições de vida e suas necessidades. Não se trata apenas de números, mas de vidas e de oportunidades. Este Brasil de tantas cores e raças é também um Brasil Romani, e é urgente que esta realidade seja desvelada.






Fotos:
Foto 1: Mapa que localiza os acampamentos ciganos identificados pela MUNIC 2009 e divulgado pelo IBGE.
Foto 2: Abertura do evento Brasil Cigano: I Semana Nacional dos Povos Ciganos, realizado em Brasília, em maio de 2013, e que contou com a presença de representações do governo federal, incluindo a Ministra Luiza Bairros, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
Foto 3: Participantes do evento Brasil Cigano seguram a bandeira cigana - ciganas e ciganos, roms e calóns. 

Projeto de Alfabetização de jovens ciganos Calón na cidade de Florânia/RN



PALESTRA: Ciclo de Debates Ciganos: Uma história invisível.



Projeto de Alfabetização de jovens ciganos Calón na cidade de Florânia/RN



Das tendas às telhas: a educação escolar das crianças ciganas da Praça Calon – Florânia/RN.¹



Prof. Ms. Flávio José de Oliveira Silva²
Saudação inicial,

Em primeiro lugar, quero dizer da minha alegria em participar de um evento desta magnitude para o enfrentamento à invisibilidade, a intolerância e o combate ao preconceito que sofrem os  povos nômades, ciganos do nosso país e do mundo. Nosso desejo é que ocorra com mais brevidade, a reparação de direitos, que sofreu nosso povo vitimado por um processo de colonização e consequentemente, o empobrecimento material dos grupos sociais menos favorecidos no contexto da nossa história...

...

Venho de Natal, capital do Rio Grande do Norte, trazendo o abraço fraterno de muitos amigos ciganos e mobilizadores sociais, militantes e educadores que se imbuíram na luta pela causa. Natal que costumeiramente exibe suas atrações turísticas de lindas praias, como um importante destino turístico do nordeste brasileiro, esconde em seus guetos e periferias, talvez a mais cruel situação de vulnerabilidade social dos irmãos ciganos no nosso país. Muitos são os desafios para garantir escola, saúde, moradia, acesso aos programas sociais, enfim, participação social e garantias de direitos tidos como fundamentais.

________________________________

¹ Título da Dissertação de Mestrado defendida no Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no dia 24 de fevereiro de 2012.

²  Professor, pedagogo, especialista em Formação Docente, Mestre em Educação pela UFRN, membro do Comitê Educação em Direitos Humanos,Educação do Campo e Relações Étnicos Raciais do RN, Conselheiro Titular do Conselho Estadual de Assistência Social – CEAS/RN.



Nosso encontro com a etnia cigana ocorreu quando ainda criança em períodos de férias, na fazenda do meu avô, no interior, mais precisamente na cidade de Florânia, a 240 km da capital, no território do seridó potiguar, nas primeiras observações com aqueles grupos de pessoas que armavam suas tendas em torno do açude da fazenda Caiçara.  Eram homens e mulheres de peles queimadas pelo sol, que levavam suas casas e vidas em lombos de cavalos e mulas e liam a sorte na palma da mão das pessoas do lugar.

Nos anos 80 do século XX, pude perceber um movimento diferente ocorrer na cidade, quando um grupo de ciganos constroem casas de morar, numa área que passou a ser conhecida como Bairro Rainha do Prado, formando um quadrilátero que os próprios ciganos o denominaram Praça Calon. Neste bairro foi construído uma escola para alfabetização de crianças da comunidade, que aglutinava neste momento, um mundo plural com a presença de moradores que abandonavam o campo, num processo de êxodo rural e os ciganos que costumeiramente passavam, e agora, por um certo tempo, ganhava permanências. A escola é denominada E. M. Domingas Francelina das Neves.

Mas meu primeiro contato com o grupo estabelecido em Florânia, ocorreu quando eu ocupava a função de Secretário Municipal de Educação e ministrava aulas de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado, resolvi aproximar as teorias da educação com a prática da sala de aula dos meus alunos. E eis que fiz uma grande descoberta: uma fonte de pesquisa, objeto de estudo que iria por anos a fio, compor uma narrativa historiográfica. Assim, uni a curiosidade de compreender o modo de vida das pessoas ciganas da comunidade e a colaboração pedagógica com meus alunos do curso magistério na escola do lugar. Nascem aí, as dúvidas, surpresas, mas um amontoado de dados escritos, pois passei a compor em um caderno de anotações, um diário de campo, que por quase 15 anos depois, se tornara uma dissertação de mestrado no programa de Pós Graduação em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Foram incontáveis visitas, entrevistas, poses para fotos, filmagens, pactos de segredos, compartilhamento de vidas, dores, esperanças e despedidas.  Nesse espaço de tempo, tornei-me o major para o grupo. Ganhei a confiança e estabeleci recíproco acordo de companheirismo e fraternidade.

No ano 2000, com a devida permissão das famílias entrevistadas e visitadas, publiquei a monografia: Sem lenço e sem documento: em que escola estudar? Trabalho acadêmico de conclusão do curso de especialização no Campus de Caicó/RN. Este primeiro passo era dado em torno da compreensão do interesse pragmático dos ciganos com relação à escola sistematizada, uma vez que, enquanto pesquisador, percebia que historicamente, os ciganos abominavam a escola.

Depois deste trabalho, pudemos alcançar na minha cidade e na região, o que considero um passo largo para o reconhecimento dos grupos de ciganos que aportavam nas cidades do interior, pois pela primeira vez, a Universidade Federal do RN estudava um aspecto do cotidiano (a educação formal) de ciganos. Na cidade e na escola, um novo conceito se impunha a partir daí, e percebemos que a evasão diminuíra e os índices de repetência também, e os professores daquela escola, passaram a compreender a cultura nômade dos sujeitos da escola e as diversidades que continham.

Assim, fui ministrar aulas no curso de Pedagogia no Campus de Currais Novos para os professores da região do seridó e disseminei com eles minha monografia, anotei sugestões de professores que já haviam ministrado aulas para crianças ciganas, dialoguei com mestres e passei a freqüentar um grupo de estudos na UFRN, da base de pesquisa Educação, História, Memória e práticas culturais. Trazer este debate para a UFRN a nível central foi um desafio. Só existiam estudos históricos em educação ligados aos povos indígenas da Paraíba e aos quilombolas do RN. A temática dos povos nômades era ainda desconhecida na academia.

O ingresso no Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no ano de 2010, no Mestrado Acadêmico, representou uma oportunidade ímpar no sentido de evidenciar o trabalho. De posse de uma escassa literatura científica sobre a temática e na companhia de um amontoado de relatos, cadernos de anotações, fotografias, recortes de jornais, ancoravam a sensibilidade e a vontade de contar para o mundo sobre o estágio de vida em que homens e mulheres denominados Calon viviam na cidade onde nasci, como também, suas experiências com a instituição escolar, motivo este que sempre me induziu a insistência em construir um arcabouço teórico sobre o fenômeno em discussão.

 Assim, perseguimos no trabalho de pesquisa com o objetivo de investigar as práticas educativas e culturais dos Ciganos do Grupo Calon, localizado na cidade de Florânia/RN, reconstruindo sua historicidade numa perspectiva sócio-cultural. Nasce daí, um recorte de acontecimentos, apropriações e formação de sentimentos, pluralidade de práticas e representações, comportamentos, institucionalização, regulamentação e sua transformação no tempo e no espaço, bem como culturas e vivências, apoiados em fontes orais e arquivísticas que deram sentido a minha dissertação acadêmica.

Dessa forma, as práticas culturais dos ciganos da Praça Calon reconstruidas, passam a ser analisada sob a ótica conceitual de Certeau (2003), que infere sobre as artes de fazer, ou maneiras de pensar e agir no cotidiano do homem ordinário. Em sua teoria das práticas cotidianas, percebe-se nos homens comuns as maneiras de fazer o mundo, ou seja, modalidades de ação que se manifestam na forma de estratégia ou de tática, e escolhemos para constituirem as categorias de análise do trabalho.

Para Certeau, as táticas se constituem na arte do fraco, que ao proceder seu feito, raramente deixa vestigios. Na condição são as engenhosidades que permite ao fraco tirar partido do forte, e que estes, se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas de produção sócio cultural. No caso contrário, as estratégias partem dos que asseguram suas marcas para a história. É o conjunto de técnicas, “cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que o sujeito de querer e poder é isolável”. (CERTEAU, 2003, p. 46). Neste movimento constante de apropriação e modalidades de usos, o autor supracitado  propõe uma (re)invenção do cotidiano.

Nos primeiros momentos da pesquisa, despertada a curiosidade sobre a identidade dos atores protagonistas do trabalho, eis que surge a necessidade de conceituar e compreender o povo cigano. Eram muitas dúvidas e necessidades de explicações. Nasciam os primeiros questionamentos, as questões ou hipóteses que iríamos perseguir durante nossa trajetória: quem são esses ciganos, de onde vieram? Quantos são? O que mesmo querem na escola? Quantos se matricularam? O que levou os pais a matricularem seus filhos na instituição de ensino, mesmo que, em que algumas vezes, nunca cheguem a freqüentar a escola? Foram incontáveis as dificuldades enfrentadas no percurso da pesquisa. Realizar entrevistas, anotações e gravações, um trabalho árduo, em função de uma característica peculiar e que fortemente marca o povo cigano – o nomadismo. Quando iniciamos o trabalho de filmagens e algumas entrevistas complementares, muitos ciganos já haviam partido em suas viagens, levando consigo seus filhos dantes matriculados na escola em que atuávamos.  

A espera do retorno dos ciganos Calon também necessitava de parcimônia para a conclusão de anotações, confirmações e compilação dos dados. Somam-se às constantes viagens dos ciganos, suas mudanças por diversos lugares e acampamentos nas outras cidades, a resistência em não dizer, falar, repassar informações precisas, a recusa por uma pose para a fotografia, o temor da delação, revelação, a troca de nomes e apelidos que utilizam como astúcia e que contribui para os (des)aparecimentos constantes. Sentimos também, a incompreensão de algumas pessoas que não aceitavam os ciganos como atores de um trabalho de pesquisa, pois as relações de preconceito entre os ciganos e os não ciganos ainda são muito fortes.

A escassez de bibliografias ou até mesmo de pesquisas científicas sobre o povo cigano já pode ser considerada vencida pela internet, uma vez que informações na área de sociologia e antropologia têm sido construídas em certa freqüência e que abordam os aspectos étnicos e culturais desse povo. São contribuições importantes para o avanço no debate das questões teóricas no campo étnico racial e cultural das identidades das minorias no nosso país. Entretanto, nos aspectos educacionais com relação a esta etnia, encontramos parco material de divulgação presente nas redes de informações.

A justificativa para a realização do presente trabalho reside em proporcionar reflexões acerca dos modos de vida cigana e de reconhecer através da pesquisa, as dificuldades de oferecer aos povos ciganos, uma educação que interessa aos que vivem em constante itinerância. Ainda vislumbra a possibilidade da construção de uma proposta de educação diferenciada para grupos minoritários que vivem em condições de pobreza e marginalidade. Além disso, acreditamos construir referências para possíveis mudanças de atitudes com relação à elaboração de políticas públicas afirmativas, permitindo novos olhares e atitudes sobre a situação de vida dos ciganos e outros grupos que aportam nas cidades do interior. Assim, a história desse povo nômade ou seminômade, que por muito tempo teve sua vida  envolta em mistérios e silêncios, tem a oportunidade de manifestar-se, ser contada, ouvida e escrita.

Apontamos no nosso trabalho que a educação é uma porta de entrada para a erradicação da pobreza, esta que gera diferenças e desencadeia processos de preconceitos e suas diversas e multifacetadas manifestações. Portanto, a presença de ciganos de todas os grupos, sub grupos, clãs, ou como se denominam, deve ser considerado  extrema prioridade no sistema escolar público. Que sejam criadas, incentivadas as tecnologias de aprendizagens em uma pedagogia da itinerância para os povos nômades, que  pautem o que necessitam aprender para o convívio com os outros. Um projeto de saberes e conhecimentos pertinentes, que mantenha ações articuladas e transversais que dialoguem com varias áreas, (educação, saúde, trabalho, habitação, tecnologia e crédito, para acontecer um contexto de emancipação social e sustentabilidade para a integração social.

Compor e fortalecer uma equipe de trabalho com notório saber capaz de entender as culturas dos povos ciganos. Um projeto que se aproxime da realidade vivida e respeite seu modo de pensar o mundo; suas cultura e tradições plurais. Um programa de Formação Contínua dos Professores e trabalhadores em educação nas escolas que recebem em sua matrícula ou que dialogam com os ciganos; Escola com acervo bibliográfico e materiais de educação para a formação permanente dos ciganos, produções próprias, documentários, enfim, levar a escola, fixa ou itinerante, para todos os povos ciganos do nosso país, como direito constitucional assegurado na nossa Carta Magna.

Os ciganos Calon retratados em nossa pesquisa, ampliam  as estatísticas de miseráveis numa nação que transita no mundo econômico como um país em ascensão e se coloca como a 6ª maior economia capitalista do mundo. São vidas em contrastes contínuos. Os ciganos da Praça Calon são possuidores de um conjunto de tradições e conhecimentos que se multiplicam de gerações em gerações através da memória e sofrem no cotidiano, as marcas da exclusão social e do preconceito estabelecidos sob o olhar do poder e do modelo econômico que promove cada vez mais a desigualdade e a marginalização. Moradores de uma área demarcada pela linha de pobreza são na maioria analfabetos ou possuem escolaridade incompleta.

 Sua passagem e fixação pelos arredores da cidade de Florânia/RN provocaram alterações significativas na vida cotidiana da comunidade. Na escola, os ciganos buscaram oportunidades de inclusão social na obtenção do conhecimento letrada no aparelho escriturístico de uma sociedade de economia e poder da cultura majoritária. Realizaram nesse processo, a apropriação do domínio de novas aprendizagens presentes no mundo atual como o manejo de máquinas, do cartão de crédito bancário, do aparelho celular, da letra viva para a Carteira de Motorista entre outras. Como podemos perceber os ciganos da Praça Calon possuem práticas sociais instituídas pela própria convivência grupal e representações fabricadas nas combinatórias de operações do cotidiano. Se apropriam e reapropriam num movimento circular, da cultura que consomem na escola onde as crianças freqüentam e fora dela, no cotidiano de convivência com os outros. Se ordenam politicamente numa construção feito peças de jogar num quebra cabeça por “maneiras de fazer”, “maneiras de viver” e “maneiras de caminhar”.  Por fim, uma bricolagem de situações produzidas por grupos ou indivíduos presos na rede da vigilância.

Certeau (2002) reforça que as práticas são as artes de fazer isto ou aquilo, indissociável de um ato de utilizar. Portanto, as representações que usam no cotidiano são suportes práticos que estão contidos nos rituais do nascimento, da morte, da sexualidade, da compreensão sobre o destino, as viagens, enfim, táticas que utilizam para burlar o mundo não cigano. Assim, os ciganos se apropriam de uma cultura externa do não cigano e o mesmo tempo, da sua que lhes é autorizada, espécie de espólio dos mais velhos que repassam de em geração seus conhecimentos, suas táticas e suas astúcias. Neste caminho, o conhecimento dos mais velhos, suas tradições e representações sobre as diversas atividades do cotidiano do cigano da praça Calon, ganha significado de capital sócio cultural desses sujeitos.

Como afirma Giardi (2008), Certeau constrói no entrecruzamento das disciplinas e dos métodos de pesquisa, associando a história e a antropologia os conceitos da filosofia, da lingüística e da psicanálise, porque desejava captar novamente cada momento histórico na multidisciplinidade dos seus componentes e contradições dos seus conflitos e porque desconfiava da imposição anacrônica as sociedades passadas, da grade que recorta atualmente os nossos conhecimentos.

Tais quais minúsculos seres que operam no subterrâneo, os ciganos minam nas galerias do submundo, as estruturas das organizações do outro – o forte, e com suas tramas, astúcias e táticas, bricolam um tecido novo para sua permanência num mundo de disputas desiguais.

Da escola, levam consigo a integração social do bairro e da cidade. Instruções de leitura, escrita e cálculo. Também, uma cultura invisível que lhes dominam o corpo e a alma, tornando-os dóceis, disciplinados e submetidos aos interesses do mais forte. Encontram na escola uma educação que lhes é imposta, e não participam das decisões curriculares, nem são chamados a opinar sobre isso ou aquilo. São vozes ausentes nos currículos escolares, pois não possuem um outro poder de barganhar por uma educação que considere a realidade concreta dos seus pares, suas origens e sua cultura cotidiana. Convivendo num espaço de conflitos com o mundo gadjê, aprendem no dia a dia a tramar com os seus iguais, novos códigos de sobrevivência.

Centrados num presente conturbado, buscam na memória a relação de sua existência como sujeitos do mundo ao afirmarem-se como tal e comprovam que suportam a dor e o sofrimento com suas táticas, modos de fazer próprios deles, como as dispersões, fugas constantes pelo mundo que lhes é aberto. Vislumbrar o acesso à cidadania bem longe é uma tarefa incansável, pois constantemente sentem seus direitos violados, violando em outra maneira o direito dos outros como forma de burlar a intensidade dos fatos vividos.

As imagens dos ciganos da Praça Calon falam por si. Nas entrevistas e nas visitas aos inúmeros acampamentos realizadas durante a pesquisa, sentimos a confirmação de que espetáculo é possível de se presenciar e de se sentir. A atitude colaboradora desses sujeitos no momento da pesquisa, o sentimento de pertencimento a um grupo distinto, a referência da coletividade presentes nas partilhas dos alimentos, dos problemas cotidianos e até dos estigmas grupais e a resistência como identidade social são referências inesquecíveis no trabalho do investigador.

Para homens, mulheres, crianças e idosos que esquecem o tempo, que reinventam seus espaços, os ciganos recriam de forma portátil seus bens e pertences, pois suas riquezas se resumem na vida do ser comum, do ser ordinário. Atuam em redes invisíveis de informações e se espalham com facilidade em trânsito livre pelas estradas e caminhos do país, sendo capazes de se comunicarem  entre si, com auxílio de sinais, olhares, sorrisos, balbucias, com o franzir do cenho e acenos para outro igual.

São conscientes da questão racial e étnica que interfere na vida coletiva de sua gente e já se articulam em grupos organizados ou instituições sociais para enfrentar o problema da exclusão e do preconceito.

No campo da educação, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) introduziram nos currículos escolares a temática da diversidade cultural. Contudo, trazendo ainda em seu arcabouço resquícios da democracia racial presentes no imaginário social do povo brasileiro. Os PCNs repassaram para a escola a tarefa de superação do preconceito e combate às atitudes discriminatórias. Mas é preciso considerar que a tarefa dada à escola como possibilidade de enfrentamento da problemática da diversidade cultural como tema transversal é fator limitante.

Para tanto, é preciso considerar que o Projeto Político Pedagógico – PPP -  tem um papel primordial na tomada de decisão focada nas peculiaridades e nas singularidades locais, podendo realizar no interior da escola, diálogos com os diferentes sujeitos da diversidade e construírem em conjunto, propostas de superação dos problemas no âmbito da temática. Ressaltamos que para os sujeitos da etnia cigana não há ainda em nível de política pública, nenhuma ação governamental, nem um ato ministerial que assegure no momento da matrícula, a indicação de sua presença nas instituições de ensino.

Outra possibilidade conhecida é a Escola Itinerante que atualmente, é largamente utilizada pelas organizações de movimentos populares como o Movimento dos Sem Terra/MST, e possibilita ir ao encontro da comunidade e estabelecer vínculos por meio de uma metodologia específica para os possíveis deslocamentos do grupo.

Após perceber que a atual conjuntura educacional brasileira, promove um rápido movimento de inclusão dos sujeitos das mais diferentes culturas e dos mais variáveis movimentos sociais na escola, o que mais nos chamou a atenção para toda esta problemática apresentada no trabalho de pesquisa, foi a necessidade que o nosso país tem de implantar urgentemente, uma política de formação para nossos docentes com foco na diversidade, o  que tanto tematiza nosso debate.

Uma formação continuada, que tenha a clareza de que uma nação democrática de fato, se constrói com princípios de equidade, de fraternidade e pertencimento humano e, sobretudo na garantia de direitos e na reparação aos danos causados aos sujeitos que séculos após séculos, continuam na marginalidade e sem acesso aos bens produzidos pelo conjunto da humanidade. Uma política que proporcione incentivos de investimentos para a aquisição de literatura, acesso às novas mídias de informações, com fomento à pesquisa, publicização dos resultados e que promova uma reorganização do pensamento cultural nos sujeitos que ensinam e nos sujeitos que aprendem. Que faça daí emergir uma outra cultura escolar para os cidadãos e cidadãs do presente.

Para nossa surpresa, no final do ano passado, dezembro de 2011, o Conselho Municipal de Educação de Canguçu/RS, realizou uma consulta ao Conselho Nacional de Educação sobre as Diretrizes para o atendimento de educação escolar de crianças, adolescentes e jovens em situação de itinerância. O Processo de nº 23001.000073/2011-58, que teve como relatoras as senhoras Rita Gomes do Nascimento e Nilma Lino Gomes. Por unanimidade, o Parecer CNE/CEB nº 14/2011 foi aprovado em 07 de dezembro de 2011 e favorece aos circenses, ciganos, indígenas e povos nômades em geral, a garantia do acesso a escola mesmo sem comprovação documental anterior ao ingresso.

Consiste então este parecer, no primeiro documento que o pesquisador teve acesso no período da investigação, onde oficialmente, ao cigano é dada a garantia de freqüentar itinerantemente, uma escola. Mas, ao que nos é sabido, o parecer, até a presente data, não foi homologado.

Como pequenas peças do mosaico que se unem a outras e formam bricolagens, um artesanato de idéias, reflexões, a pesquisa ora apresentada, tornou possível de conhecer dos ciganos da Praça Calon algumas memórias de viagens, percursos trilhados, genealogia de algumas famílias, as recordações familiares, brinquedos e brincadeiras, algumas cantigas, danças, mitos, língua e linguagens, o imaginário, a sexualidade, enfim, as práticas culturais e educacionais que fazem parte da construção coletiva desse grupo e que dá suporte à continuidade de sua existência.

Portanto, temos muito a fazer, muito a construir, mas sobretudo, muito a conquistar.


No ano de 2012 - a AMSK/Brasil, contou com amigos, com pessoas acima de seus cargos e o profº Flávio José foi um desses amigos insuperáveis.
Nessa construção, esperamos que as ações se solidifiquem e que tudo comece a andar. Andar nas Universidades, nas escolas, nas casas e nas ruas.
O preconceito é uma mancha em toda e qualquer sociedade, retira a capacidade de conviver livre e verdadeiramente com as pessoas, retira a capacidade de ser e de estar. Retira o direito do pertencimento, da história e da vida.
Quase tudo se pode alcançar atravês da educação e é por aí que pessoas como o profº Flávio José caminha, acima das águas, atravês dos rios e filetes de água, atravês de histórias vivas.

AMSK/Brasil